Au revoir, Jacques

Outubro 2, 2019
Posted in Colunistas
Outubro 2, 2019 Guilherme Romano

Chirac sempre atiçou o imaginário popular das massas, tanto internamente como externamente. Seu magnetismo pessoal rompeu barreiras, tratados e as fronteiras mundiais. Seus cargos públicos foram vários, mas o que realmente impulsionou essa trajetória única foi o fino trato da sua etiqueta. Ele, como poucos, entra agora para a história, talvez, como o grande último estadista contemporâneo.

Da Paris proibida e sem autonomia política desde a Comuna de 1871, foi eleito seu primeiro prefeito, mais de cem anos depois. Fez dali, conforme os heróis de outrora, uma trincheira moral e política. Abriu, através da estreita parceria com Mitterrand, novos caminhos e belos jardins através da revitalização urbana e arquitetônica da Cidade Luz.
Nos porões daquela Prefeitura, aos olhos de poucos, forjou sua principal arma para a arena política, um verdadeiro arsenal para os embates vindouros, uma prestigiosa adega a partir dos melhores vinhos da França. Esses, diferentemente do óbvio, visavam ao diálogo e ao convencimento na difícil arena política que circunscrevia o poder de então.

A adega, diga-se de passagem, financiada pelo dízimo do contribuinte, revelou-se, à época, para mim, um verdadeiro desvio de conduta para um homem público. E foi esse o fato que mais me chamou a atenção acerca da figura de Chirac.
Esse deslize em torno à adega conjugado ao poder na França profunda ensejou, desde então, em mim, uma espécie de desafio para fins de projetos criativos que ora iam da documentação dos rótulos, cepas e os seus respectivos preços, ora de encontro a um conto ou, quem sabe, um livro.
No dia 25 de setembro passado, quarta-feira, essa inquietação novamente bateu à minha porta. Algo sutil no campo das ideias, um thriller talvez, na forma de assalto às ótimas garrafas, quem sabe? Ensaios, roteiro mentais ganharam corpo na minha mente ao longo de todo o dia. Mas, o universo e o seu invisível particular demonstravam, mais uma vez, que a realidade era outra, algo muito mais sublime. Na manhã seguinte, um pop up no meu navegador anunciava a morte de Chirac. Era o momento do adeus ao último grande gaullista. Partia ele para o seu mais novo embate: a eternidade, agora que se transformava em borra do seu melhor vinho.

A perfeita combinação, no passado, desse bom vinho com o melhor do estratagema político, permitiu a Chirac coabitar pelo inexorável espectro político local. Harmonizou em torno de si, inimigos letais como ninguém ao seu tempo, jacobinos, girondinos, socialistas e gaullistas orbitavam em torno do seu centro como nunca visto antes num pacto comum pela França. Expôs, o que nem De Gaulle admitiu, a crueldade do Estado francês para com os judeus no Holocausto da Segunda Grande Guerra. Por fim, no front externo, disse, décadas depois, um sonoro “não” dentro do Conselho de Segurança da ONU para a guerra do Iraque.
Sua proximidade com o Brasil, permitiu a ele dois encontros com nossos presidentes. O primeiro aperto de mão foi com FHC e o segundo, mais duradouro, foi com Lula, com quem lutou, lado a lado, para erradicação da fome e da miséria. Firmou, a partir dessa aliança, a taxa Chirac nos voos internacionais que hoje é adotada em mais dez países para o combate de doenças, tanto na África como na Ásia. Pleiteou pelo Brasil ainda, um lugar ao sol dentro do Conselho de Segurança da mesma ONU. E, por fim, deu linhas mestras ao Ano do Brasil na França e o seu inverso colorido em nossas terras.

É claro que Chirac teve, como homem público, seus dissabores. As avarias começaram nos testes nucleares na Polinésia Francesa, no início da sua carreira e as derradeiras foram as suas condenações na Justiça. Porém, o seu rastro político foi fulminado por um grande sonho, o da Europa unida através de uma constituição geral. Essa derrota internacional abriu seu flanco interno e rupturas surgiram para a sua substituição por um pseudo-aliado de nome Sarkozi, seu sucessor na República da França.
Mas que, no apagar das luzes, a justiça seja feita. Aquela adega revestida de Bourdeauxs e achados da Aquitânia, tão criticada por mim, ao fim foi à leilão no ano de 2006 gerando substanciais divisas à Prefeitura de Paris. O que nos mostra que tanto na política como na vida, cada qual deve escolher as suas armas para as guerras do por vir, mas que essas, ao final de contas, sejam minimamente dignas e livres do ódio, da corrupção e da segregação.
Salud et au revoir.

 

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e, nas horas vagas, administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.

× Precisa de ajuda?