Presta Atenção! – Parte 1

26/09/2019
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26/09/2019 Raquel Del Monde

Todo professor já viveu essa cena algumas centenas de vezes: estar à frente da classe, caprichando na explicação da matéria e, ao virar-se para sua plateia, encontra alguém (ou vários alguéns!) no mundo da lua. E quem nunca lidou com alunos que sempre esquecem materiais, normas, recados, prazos etc?

“Falta de atenção” deve ser a anotação mais comum nos boletins e comunicados escolares. E não é pra menos.

A atenção é premissa essencial para o desempenho dos alunos: para entender o conteúdo, realizar as atividades, seguir instruções, anotar tarefas, evitar erros. Mais que isso, a atenção é condição básica para os processos cognitivos em geral. 

Podemos entender a atenção, de forma ampla, como a função que determina a disposição neurológica para percepção de estímulos, processamento de informações e elaboração de respostas (comportamentos – dos mais simples aos mais complexos).

Trata-se, na verdade, de uma função multifacetada, composta de várias habilidades: a habilidade de selecionar um estímulo entre os diversos estímulos que chegam simultaneamente ao cérebro, focar nele e inibir os restantes; a habilidade de alternar o foco entre estímulos diferentes; a habilidade de escolher qual será o estímulo mais relevante (priorizar).

A atenção está necessariamente ligada a outras funções:

  • Nível de alerta: por mais óbvio que seja o que vou dizer: uma pessoa em coma não presta atenção ao ambiente. A atenção está ligada ao nosso estado de vigília. Quando estamos dormindo, ela “desliga-se” temporariamente. Se estivermos muito cansados, nossa disponibilidade para focar em algo também estará bem baixa. Noites mal dormidas tem impacto direto na atenção. Portanto, pessoas com distúrbios do sono, aquelas que usam certas medicações, que têm rotinas muito irregulares ou simplesmente que utilizam dispositivos eletrônicos excessivamente (soa familiar?) podem ter prejuízo significativo na concentração.
  • Percepção: nossos sentidos funcionam como uma interface entre nosso organismo e o ambiente; são eles que nos trazem à consciência as informações necessárias para qualquer ação de nossas vidas. Alguns deles trazem informações do ambiente externo (visão, audição, tato, paladar e olfato) e outros (propriocepção e vestibular) trazem informações sobre o que está acontecendo do lado de dentro (sensações como fome, sede, dor, mal estar e sobre os aspectos físicos e dinâmicos do nosso corpo em relação ao espaço). Sensações intensas, persistentes ou inesperadas tendem a chamar o foco para si, prejudicando nossa capacidade de concentração. Imagine ter uma enxaqueca horrível ou numa dor de barriga no meio de uma aula.  Vamos lembrar também que algumas pessoas apresentam maior sensibilidade a alguns estímulos, interferindo diretamente na sua atenção. Pessoas que são hipersensíveis a um estímulo vão ter sua atenção muito mais voltada a eles do que as outras (leia nosso texto anterior sobre TPS). Por exemplo: uma pessoa hipersensível a barulho pode notar que um ônibus acabou de passar a duas quadras. Ou alguém hipersensível a cheiros pode identificar que determinado indivíduo passou por ali. Ou seja, estímulos variados do meio ambiente podem captar sua atenção de forma mais marcante. Um aspecto que interfere na modulação da atenção dos autistas é justamente sua elevada performance perceptual visual, que pode fazer com que foquem em detalhes do ambiente em detrimento da atenção aos aspectos sociais.
  • Motivação e afeto: nossas emoções recebem atendimento preferencial do cérebro. Gostamos de pensar que somos movidos pela lógica e muitas vezes ignoramos o poder primitivo das emoções. Vamos a alguns exemplos de como elas influenciam a atenção. Começamos com o medo, provavelmente a emoção mais poderosa de todas. O medo está a serviço do nosso instinto de sobrevivência (e nada no mundo é mais forte que a pulsão pela vida). Imagine que você está dormindo tranquilamente na sua cama (e, portanto, com baixo nível de alerta). Em determinado momento, algo faz barulho no seu quintal (pode ser um gato, mas seu cérebro está preparado para reconhecer a possibilidade de ser um invasor). Você acorda em segundos, pronto para agir, se necessário. Outra emoção e outra cena: imagine que você está conversando em uma roda de amigos e chega o crush. Você pode até perder o fio da meada na conversa, mas provavelmente vai captar cada detalhe do que ele disser. Todos nós naturalmente prestamos mais atenção a coisas que nos interessam. Aquele aluno que se dispersa em sala de aula pode ser campeão de um jogo on line. Por outro lado, um indivíduo deprimido ou ansioso terá muito mais dificuldade de se concentrar em algo.
  • Funções executivas: conjunto de funções que nos permite planejar, organizar e monitorar a execução da sequência de passos necessários para completar determinada tarefa ou objetivo. Tem importância no estabelecimento de prioridades, influenciando a seleção do estímulo mais relevante em cada momento.

 

Portanto, não é só o aluno com TDAH que pode apresentar dificuldades em se concentrar. Todos nós passamos por situações variadas que influenciam diretamente a atenção. Conhecê-las melhor é o primeiro passo.

Na próxima semana: como podemos favorecer a atenção dos nossos alunos?

 

 

 

 

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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