Um réquiem para Ágatha

25/09/2019
Posted in Colunistas
25/09/2019 Guilherme Romano

Uma crônica se faz, antes de tudo, pelo sentimento que desponta no coração. Depois se alinha o discurso na perspectiva daquele mesmo momento, sem perder a emoção. Na levada do instante, sempre melhor colocar o coração para falar. São 21h45 do dia 23 de setembro de 2019:

O sonho de ser bailarina, fruto, talvez, de um amor ou ainda de uma aventura de menina, é hoje a poeira do passado. Poderia essa menina ter sido, num futuro próximo, a primeira bailarina do Municipal?

Não mais.  Hoje ela é apenas mais uma estatistica infeliz de um Estado cadavérico,  que mata e estupra a esperança de dias melhores.

Ágatha teria querido seguir o magistério? Esse seria seu sonho:  ter a lousa como cenário para levar o conhecimento a centenas alunos para um futuro melhor?

Poderia ela ainda ter sonhado ser a principal porta-bandeira da Portela? Seria Ágatha a nota dez do estandarte azul e branco, a perfeição do samba enredo pagão que o abastado asfalto coroa uma vez ao ano?

Ou teria enveredado pelo caminho da ciência – nossa mulher maravilha mirim – descobrindo curas, drogas salvadoras ou a energia pura que livrasse os golfinhos e pumas da extinção?

Qual seria o sonho da menina? Mãe, empreendedora que geraria riquezas e lucros, promovendo a inclusão daqueles que, como ela viveram reféns da desigualdade, invisíveis ao Guanabara e aos ideólogos de blá blá blá?

Não. Daquela que poderia chegar a viver qualquer sonho, foi-lhe retirada a possibilidade de sonhar. Bateu suas asas de anjo, a boa Ágatha. Deixou o sangue e o corpo como testemunhas da vergonha e do cinismo desse país cada vez mais canastrão.

Voa para longe, Ágatha, abandone de vez esse covil; encontre os seus, os bons, os anjos da esperança, da fé e do amor. Voe e voe para muito longe porque suas asas nunca serão verde, amarelo e anil.

 

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e, nas horas vagas, administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.

Guilherme Romano

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.
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