Bullying: estamos falhando?

24/09/2019
Posted in Colunistas
24/09/2019 Helenice Schiavon

Semana passada, a Dra. Raquel Guimarães Del Monde1, pediatra e psiquiatra infantil e Mentora CORE, discorreu com muita clareza sobre um tema insistente nas mídias e fenômeno recorrente nas escolas: o bullying. Como boa leitora que penso ser, peguei-me a “dialogar” com  o  texto da especialista em desenvolvimento, aprendizagem e autismo; sempre entre constatações e espantos.

Muito do que ela disse ali soou para mim como constatação; ou mais, uma consternada confirmação. Mas também veio em forma de espanto, e essa, confidencio, foi a pior parte. A este ponto (e perdoe-me a doutora se digo alguma falácia), posso afirmar que para cada constatação adveio um espanto ainda maior.

Assim, admitindo que “constatar” significa reconhecer como verdadeiro, cabe também dizer que não foi muito fácil aceitar – ao menos não sem me espantar – com o fato de que o “bullying” é, ao mesmo tempo,  pauta (insistente) de jornal e prática (banal) na escola. Mas, custoso mesmo foi reconhecer que o bullying continua firme no seu elevado propósito de persistir na escola, ainda que como “fenômeno”. Espantoso!

A competente especialista dá uma justificativa para a persistência do bullying na escola e pasmem, ela nasce de um equívoco, mas se alimenta da omissão e da maldade coletivas. Ela escreve:

“Não, você não sofreu bullying simplesmente porque os amigos te chamavam por algum apelido ou porque alguém pontuou algum defeito seu ou porque foi xingado durante uma briga. O bullying se caracteriza por agressões físicas ou psicológicas sistemáticas cometidas com o objetivo de intimidar, humilhar ou ferir pessoa vulnerável. Há um desequilíbrio na relação de poder entre os envolvidos, em que o agressor (ou os agressores) considera-se numa posição de superioridade (hierárquica, econômica, social, física ou cognitiva) em relação à vítima”.

Ora, veja você se não se trata de equívoco (não sei se o termo é justo) que na escola não haja pessoas aptas a diferenciar um ato esporádico de um sistemático; ou uma ação inadvertida de outra intimidatória e recorrente! Concorde comigo se não é uma omissão sem tamanho deixar-se cegar pelos objetivos do currículo que falam sobre paz ou guerra – tanto faz  – e seguir de olhos fechados para as pequenas maldades na sala de aula. O que será possível dizer a respeito dos minutos que pingam monótonos nas aulas, perfeitos para  desconfigurar e confundir os caráteres? Espante-se mais ainda que não haja ninguém, absolutamente ninguém, que consiga previnir, evitar ou impedir o bullying a tempo e antes da primeira investida! A maldade nunca deixa rastros? Como é posvel que nós, adultos, não a vejamos? Estaremos absolvendo instintivamente os agressores porque consideramos este mal apenas banal?

O requinte do equívoco, da omissão e da maldade não acaba aí. Mais adiante, no texto, a dra. escreve sobre a vulnerabilidade das pessoas neurodiversas e o impacto do bullying no seu desenvolvimento. E isso me faz pensar sobre o quanto estamos falhando neste nosso papel de preservar, desenvolver, transformar vidas.

Não estou repetindo aqui o discurso vazio, feito na medida para culpabilizar os profissionais que habitam a escola; tampouco os que estão fora dela.  Também não é minha intenção tratar o bullying como um fenômeno e, dessa forma, justificar o equívoco, a omissão e a maldade sempre presentes nestes casos. Menos ainda é apontar o dedo às organizações (ainda que assumidamente retrógradas) que são as escolas ou banalizar os desatinos das gerações de estudantes que entram e saem delas a todo tempo.  Quero sim colocar luz naquilo que é, com muita frequência, uma desventura triste e amarga que acontece na escola: o bullying.

Na minha modesta opinião, falhamos sim; e falhamos todos. Ao menos porque não admitimos nossa fragilidade em conhecer o tema com profundidade. Precisamos admitir nossa tolice, nossa ingenuidade, e passar a estudar formas de identificar o bullying para, no diálogo, construir ações exitosas. Precisamos parar de seguir teimando em apenas nos aprofundar nos tipos de bullying, em entender porque ele ocorre, em simplesmente nos compadecer ou nos indignar com ele… Devemos nos espantar mais e ir além: reconhecer o bullying, mas também diferenciá-lo e isolá-lo em toda a sua banalidade, porque, a continuar assim, só resta dizer:

Falhamos incrivelmente, uns mais, outros menos, mas falhamos.

(1) https://www.coreduc.org/2019/09/19/bullying-e-autismo/?fbclid=IwAR2sZ8nedGCfeNb02PVRlj1iWoirFbSm42A4Ym4Sc3Cp41HbvMkyMEOJN1A

, ,

Helenice Schiavon

Professora, graduada em Letras e em Pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional, Gêneros textuais, Literatura brasileira e africana. Promove vivências em Design Thinking e Empreendedorismo para educadoras. Fomenta as narrativas como parte da formação do sujeito. É Reinventora CORE.
× Precisa de ajuda?