Bullying: uma experiência de humanidade?

21/09/2019
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21/09/2019 Helenice Schiavon

Arrisco-me a fazer uma afirmação nas linhas abaixo, mesmo temendo a possibilidade deste texto não ser lido até o final. Lá vai:

Para mim, a escola é o melhor lugar para alimentar o bullying.

Se você não parou de ler este texto, talvez tolere seguir por mais algumas linhas e permitir, assim, que eu me explique – embora isso possa me complicar ainda mais:

Na escola, não nos preocupamos com aquilo que haveria de ser o mais importante na vida de uma pessoa.

Se eu não provoquei revolta – e logo o saberei – então me arrisco a, digamos, “blasfemar” ainda mais:

A sala de aula – tão coletiva, enfileirada e anacrônica  – tem um potencial incrível para amortecer as mentes para a indiferença e  para a insensibilidade e até para sincronizar maldades.

Dito assim, desta forma, pode ser mesmo que você nem queira saber do resto que tenho a dizer. Mas, se ficou por aqui, devo lhe pedir uma chance para me explicar mais completamente e, quem sabe, atribuir algum sentido à minha fala. Para isso, acredito, é bom que você saiba quem lhe escreve:

Sou uma pessoa do tipo previsível. Tipicamente humana, eu acho. Sou daquelas que choro em filmes, me contagio com músicas, me revolto com injustiças, me arrepio com sincronias e apago todo o brilho que me resta com uma tragédia, permitindo que ela me ocupe o peito por inteiro. Perdoar, para mim, assemelha-se ao ato de respirar (um, dois e… três!); embora em termos de generosidade penso que esteja um tanto atrasada nesta vida. Sou previsível, sim, mas não do tipo superficial. Tenho mesmo, admito, uma previsibilidade humana bem profunda, daquelas que  sempre avalia os dois lados do problema e jamais deixa de se perguntar se algo é ou não é justo…

Sou previsível, humana e, confesso, algo tola. Como professora, em geral, isso tudo não me ajuda, mas, sabendo que os  50 minutos tão bem marcados na escola nunca deixam que a minha humanidade se aperfeiçoe, não é raro que  eu nunca termine, de propósito, de corrigir a tempo o exercício que pode cair na prova, só por causa dos preâmbulos que faço, dos tempos que destino a corrigir posturas e vontades, do esforço que dedico a compreender os pressupostos presentes nas falas dos alunos e, sobretudo, da solicitude com que me coloco diante deles (quase sempre para me expor mais do que deveria)… Tão previsível… E tola.

Ali mesmo, na sala de aula, minha tolice não tem limites e, em nome dela,  inverto o índice e o currículo o tempo todo, só para compreender melhor a fala agressiva ou lacônica do menino – embora mais fácil fosse, apenas,  dar –lhe uma anotação por indisciplina ou me encher de certezas sobre sua incompetência ou defasagem.

Minha humanidade (e ingenuidade) exacerbadas  nem conseguem pensar no bullying como fenômeno, como evento, como comportamento, como consequência…  Para mim, é certo que a crueldade, a falta de autoestima, de segurança, de  objetivo, de cuidado e de empatia não são fenômenos alheios  aos seres humanos deste Planeta; e seria muita ingenuidade pensar que não estariam presentes na escola…

Acho mesmo que todos nós estamos cometendo um erro básico com estas pessoas que procuram refúgio na escola. No mínimo, não estamos, enquanto adultos,  fazendo a leitura correta de suas demandas. O mundo não ficou menos humano. Sempre foi assim, tão carente de bondade, coerência e justiça. E sempre o haverá de ser. Ademais, é bom sempre estar atento ao tempo das novas maldades. É bom que se compreenda, de uma vez por todas, que não será nesta escola tão coletiva, enfileirada e anacrônica (que tantas vezes trata os sofrimentos, as falhas  e as incompletudes jovens como conteúdos de segundo plano), que se dará conta da perene maldade humana.

É preciso, no meu modesto ponto de vista, como pessoa (e professora) previsível, humana e tola, que a escola saiba que os humanos que a procuram, não o fazem apenas pelo conhecimento. Ao contrário. Fazem-no pela experiência que podem ter com a humanidade.

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Helenice Schiavon

Professora, graduada em Letras e em Pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional, Gêneros textuais, Literatura brasileira e africana. Promove vivências em Design Thinking e Empreendedorismo para educadoras. Fomenta as narrativas como parte da formação do sujeito. É Reinventora CORE.
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