Bullying e Autismo

19/09/2019
Posted in Colunistas
19/09/2019 Raquel Del Monde

Bullying é um assunto recorrente na mídia e nas escolas. Talvez até por essa razão, vemos que houve uma certa banalização do termo.

Não, você não sofreu bullying simplesmente porque os amigos te chamavam por algum apelido ou porque alguém pontuou algum defeito seu ou porque foi xingado durante uma briga.

O bullying se caracteriza por agressões físicas ou psicológicas sistemáticas cometidas com o objetivo de intimidar, humilhar ou ferir pessoa vulnerável. Há um desequilíbrio na relação de poder entre os envolvidos, em que o agressor (ou os agressores) considera-se numa posição de superioridade (hierárquica, econômica, social, física ou cognitiva) em relação à vítima.

Os atos de agressão podem passar completamente desapercebidos. Ocorrem fora da supervisão dos adultos, em banheiros, redes sociais, encontros fora da escola, de modo furtivo e dissimulado. Por isso chegam a causar espanto quando são descobertos.

Todos sabem que as consequências do bullying podem ser devastadoras, com grave impacto na saúde física e mental das vítimas, levando a sérios prejuízos em seu comportamento, aprendizado e vida social. Algumas vezes as consequências são trágicas.

Infelizmente, ouço muitas histórias de bullying no meu trabalho com pessoas neurodiversas. Dificilmente se passa uma semana sem um novo relato.

Nosso assunto de hoje é a percepção dos autistas em relação ao bullying. O déficit da Teoria da Mente e a dificuldade em interpretar as intenções das outras pessoas e o contexto social podem ter muitas implicações nesse sentido.

De um lado, podem exercer um certo “papel protetor”, principalmente na infância. Muitos comentários e gestos podem simplesmente não ser registrados pela criança e perdem o propósito. Mas essa mesma “inocência” pode instigar instintos de maldade de alguns colegas e torna-los alvos de “armações” na classe.

A coisa toda tende a piorar na adolescência, quando tudo muda: o autista torna-se geralmente mais atento à dinâmica social que ocorre à sua volta, os tais instintos de maldade de colegas podem estar mais aguçados (pela necessidade de autoafirmação e pertencimento ao grupo própria da idade) e a proteção dos adultos responsáveis não é mais muito eficaz (os adolescentes passam a conviver em outros ambientes – muitos virtuais – e a ter códigos próprios).

A menor compreensão desses códigos e do cenário social como um todo aciona o botão de medo no cérebro. Sensações difusas de apreensão e ansiedade se instalam levando a um estado de hipervigilância (afinal, não se sabe de onde pode vir a próxima ameaça). Em alguns casos, é a percepção muito particular do autista que torna determinada vivência aversiva (como, por exemplo, interpretar que todos que dão risada de algo na classe estão rindo às suas custas). Além disso, a dificuldade de pedir ajuda ou a angústia por não se sentir capaz de lidar sozinho com a situação contribuem para aumentar seu sofrimento.

As reações podem ser bem diversas, de acordo com características pessoais de cada um. Alguns se fecham ao contato social, resistem a sair de casa, podendo mesmo chegar a abandonar a escola e atividades de lazer. Outros apresentam comportamento agressivo (auto e/ou heteroagressivo) que pode manifestar-se apenas em determinados ambientes. Ainda outros exteriorizam seu sofrimento em queixas físicas: alterações de sono, apetite, dores, mal estar.

O trabalho com autistas adolescentes precisa abordar questões comuns da idade (transformações físicas, busca de identidade, sexualidade, vivências sociais), “traduzir” com clareza as experiências reais do cotidiano e focar no desenvolvimento ferramentas para lidar com as situações que podem surgir (assertividade, segurança pessoal, resolução de conflitos e busca de ajuda).

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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