Otimismo deslocado ou porque as adaptações pedagógicas não são regalias

13/09/2019
Posted in Colunistas
13/09/2019 Raquel Del Monde

COLUNA DA DRA. RAQUEL DEL MONDE

 

O garotinho com dislexia à minha frente havia sido diagnosticado no ano anterior. No início, foi um grande alívio quando a família finalmente conseguiu entender a razão do baixo desempenho na escola: não, não era preguiça, má vontade, manipulação, nada daquilo que vinha sendo insinuado por muita gente. Era um transtorno de aprendizagem, uma condição que poderia receber uma intervenção adequada. E que alegria quando a escola aceitou o diagnóstico, passou a seguir as orientações e o menino deslanchou.

Mas, passados alguns meses, aí estava ele, de braços cruzados, com os olhos cheios de tristeza e desânimo, novamente com problemas na escola. Não precisei investigar muito pra saber o que tinha causado a regressão. Ele mesmo se adiantou em explicar. A professora tinha retirado todas as adaptações que vinham sendo usadas. “Por que?”, eu perguntei, perplexa. “Porque ela disse que eu sou capaz de fazer como os outros.” disse o menino, frustrado e envergonhado.

 

 

Fui falar com a professora. Uma senhora doce e alegre, com décadas de experiência no magistério. Cheia de boas intenções e otimismo. Já foi me contando que acreditava no potencial de seus alunos, que dizia sempre a eles que eram capazes de tudo. E que o aluno em questão, para ela, era igual aos outros. Ela fazia questão de tratar todos igualmente. E que ele tinha evoluído tanto nos primeiros meses que já estava na hora de começar a fazer as tarefas exatamente como os outros.

Quantas falácias pedagógicas naquele breve discurso! Chavões e conceitos equivocados impedindo a inclusão escolar efetiva.

Até quando “tratar igualmente” vai ser confundido com “tratar com justiça”? Alunos de uma mesma sala, de uma mesma série, não são iguais. Nenhuma pessoa é igual à outra e jamais deveria ser cobrada para que fosse. Desde o material genético, passando pelo processo de desenvolvimento com todas as variáveis envolvidas, até a história de vida de cada um, tudo isso resulta inevitavelmente em habilidades e dificuldades diferentes.

“É tudo uma questão de esforço.”  É inegável que esforço e dedicação estão por trás da maior parte das conquistas da nossa vida. Mas também é inegável que não são os únicos ingredientes necessários. Você não pediria a um aluno com deficiência visual para se esforçar mais para enxergar. Eu poderia me esforçar tremendamente e ainda assim jamais jogaria futebol como o Neymar. Então porque sentimos e agimos como se muitas das dificuldades que vemos em salas de aula fossem resultados de falta de esforço do aluno? Será que no fundo não duvidamos que algumas dificuldades sejam reais? Entre outras coisas, é mais cômodo pensar assim, a responsabilidade fica apenas nos ombros do outro. E que mensagem passamos quando apenas decretamos “O aluno precisa se esforçar mais!” num boletim, sem aumentar o suporte, o apoio que pode fazer a diferença na vida desta criança?

Mas eu já o vi fazendo essa tarefa antes, sei que consegue!” É natural que um professor fique hesitante em oferecer uma acomodação pedagógica que julga desnecessária. Vou dar um exemplo comum. Costumamos solicitar que determinado aluno (geralmente com dislexia, comprometimento da coordenação motora fina ou da coordenação visuo-motora, dificuldades atencionais, autismo) seja dispensado da cópia escrita da lousa. O professor protesta “Ele consegue copiar da lousa!”. E eu pergunto: “Sim, mas a que preço?”. Para alguns alunos, copiar a matéria da lousa é uma sobrecarga tão grande que ele deixa de prestar atenção na explicação do professor, se atrasa para fazer os exercícios, se frustra por ter ritmo tão mais lento que o dos colegas, se desorganiza e acaba por perder o conteúdo. Nesses casos precisamos avaliar prioridades e refletir qual o verdadeiro objetivo da atividade: formar copistas? Ou favorecer o aprendizado?

 

“E os outros alunos? Eles também vão querer essas regalias!” Adaptações pedagógicas não são privilégios. São maneiras de contemplar estilos cognitivos diferentes e dar oportunidades mais justas para o desenvolvimento de cada um. Por acaso, todos da sala precisam de óculos? Ou de aparelho auditivo? Faz parte do processo de se tornar cidadão aprender a respeitar as diferenças. Geralmente as crianças aceitam muito bem a existência de adaptações na sala de aula, são os adultos que costumam questionar.  E é para esses possíveis questionamentos que a escola precisa ter bem definida a sua postura de inclusão.

​ “Mas será que o aluno não vai se acomodar com a situação e deixar de progredir?” Essa é uma preocupação sempre presente. Mas o que vejo acontecer é que o aluno é o primeiro a sinalizar quando não precisa mais de uma adaptação. Crianças e adolescentes não gostam de se sentir diferentes de seus colegas. Ao contrário: às vezes chegam a recusar uma adaptação que necessitam porque não querem se expor. Inclusive, é necessário muita sensibilidade para não constranger o aluno.

Gostaria de finalizar com uma definição de inclusão escolar que achei genial e inspiradora: “Inclusão escolar trata-se de planejar intencionalmente o sucesso de todos os estudantes”. É isso.

PS: a história do início do texto não é ficção. É apenas uma das muitas que já vivenciei, que variam entre si por alguns detalhes como nomes, lugares e condições clínicas.

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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