Quando a América se rendeu à África

Setembro 11, 2019
Posted in Colunistas
Setembro 11, 2019 Guilherme Romano

Numa manhã de um sábado qualquer, uma palavra veio ao meu encontro. Pode se dizer que, de forma despretensiosa, nossos caminhos se cruzaram naquele dia. Displicentemente, acessei por impulso minha pequena notável biblioteca; lá a lombada do livro “1001 discos para ouvir antes de morrer”, pinçou minha atenção. Adianto a vocês que as listas, catalogações e as hierarquizações de todas ordens são infalíveis para mim, basta que os assuntos tenham uma lógica explícita ou implícita para subtraírem meu raciocínio. Voltando ao livro, instintivamente, o abri, na página 555 e lá estava a palavra Graceland abaixo do pomposo nome de Paul Simon, um convite mais que irresistível.

Seguindo minha intuição, dediquei-me às linhas e parágrafos sobre o álbum. No início, a obra aborda a crise de meia-idade de Simon, decorrente das desilusões pelas quais tanto ele como a dourada geração dos anos sessenta e setenta naufragavam no crepúsculo dos anos oitenta. Na mesma, seguiram outros por maiores, porém é necessário abortá-los para introduzir a vocês uma outra nuance de Graceland.

Graceland, além de dar nome ao álbum de Paul Simon, é,também, o templo maior do rock ‘n roll. Trata-se da mansão formatada em museu designada a abarcar, ninguém mais, ninguém menos, do que a biografia do ícone Elvis Presley, a grande estrela gênero. Centenas de milhares de pessoas, ano a ano, se dirigem à Memphis, no Tennessee, para conhecer in loco os segredos, manias e a personalidade do rei do rock.

A música tema do álbum de Simon rememora sua própria peregrinação à Graceland, explora os desfiladeiros da vida mundana de um personagem incomum, num misto de dores e nostalgia que, combinadas com amores e dissabores, desatam no folk característico do compositor. Porém, dentro de suas notas há algo maior, potente e reluzente, um verdadeiro tesouro para os amantes da boa música.

Tudo começa como um sinal para Simon, uma palpitação frente aos ritmos e levadas de um velho cassete. Por entre o tocar das fitas magnéticas emergiam sons paridos da distante África do Sul. Mais precisamente, musicalmente, perfilavam para seus ouvidos, as melodias do Boyoyo Group e do Ladysmith Black Mambazo. Os coloridos beats,  combinados com a sua inquietação interior, fizeram com que o já consagrado artista contatasse seu agente com o intuito único e exclusivo de se juntar àquele incomparável movimento musical distante.

Naquele período, a África do Sul estava mergulhada na obscuridade do apartheid. Era, talvez, o lugar mais inóspito do mundo para se empreender música no momento. Imagine vencer as barreiras raciais, o atroz arcabouço de preconceitos e, ainda, fazer música de forma alegre e despretensiosa? Mesmo diante dessas adversidades, Simon se dirigiu a Johanesburgo com o objetivo de gravar com os expoentes daquela música abissal. O produto final dessa série de encontros foi o antológico álbum Graceland, histórico, profundo, forjado a partir do melhor do swing sul-africano conjugado com o refino das melhores melodias norte-americanas.

A partir desse primor musical, o álbum representou para o mundo da música um dos principais milestones da worldmusic. As tenras letras entrelaçadas pela leveza dos ritmos africanos alçaram o álbum para as principais paradas musicais, mas seu voo mais alto foi ao além do artístico. Colocou, pela primeira vez, justapostos para o mundo, um branco em pé de igualdade com os negros sul-africanos. Frente a frente, igualitariamente, sem muros ou algemas, esses dois extremos do mundo de então compuseram, riram, dançaram, cantaram, celebraram. E, por fim, firmaram pela música um dos maiores atos políticos da década de oitenta. Insuperável para a nossa história, esse ato desencadeou o começo do fim do regime de exceção do apartheid. Graceland consagrou-se como um álbum único, plasticamente incomparável e inegociável politicamente. Representou a igualdade em pé de justiça por meio da música na sua melhor forma. Que Graceland continue eterno e perdure em nossos corações, ouvidos e mentes.

 

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora descansa comigo o livro: Confesso que vivi, do insuperável Pablo Neruda. Meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são um bom café e viajar pelo mundo.

Instagram: @guirmano

, , ,
× Precisa de ajuda?