O que dizer sobre o bullying?​​​​​​​​​​

Setembro 10, 2019
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Setembro 10, 2019 Helenice Schiavon

Haverá certamente quem fale com mais propriedade sobre o bullying do que eu. Sou pessoa iludida com a vida, confesso – o que não me isenta de pesada culpa. Haveria de ser mais útil neste mundo se tirasse esse véu azul dos meus olhos.

Tamanha ingenuidade no caráter ao menos pode ser compreensível, eu acho: venho de um tempo em que qualquer felicidade me bastava. Às vezes, ela estava nas balinhas e gomas que se escondiam no  saquinho de papel pardo que meu pai trazia para casa – dia sim dia não. Outras tantas, a tal felicidade descia a serra num dia ensolarado – só para comera comida que não era feita em casa; ou então ralava os joelhos num tombo de patins ou bicicleta… Viver cobrava pouco de mim, devo confessar: as notícias que me chegavam eram sempre verdadeiras, o mal nunca vinha trasvestido de bondade; o muito, nunca chegava sem merecimento. A virtude jamais surgia desacreditada ou diminuída…

Em resumo, viver sempre foi mais fácil para mim – e disso não posso reclamar – ainda que os celulares não coubessem nos bolsos, os computadores mal se acomodassem em salas, as roupas não se comprassem em sites e a realidade virtual fosse uma ficção no cinema que ficava longe de casa.

Qualquer felicidade me bastava, de verdade: juntar-me aos amigos em toda a sua heterogeneidade no final de semana – da menina esperta demais para a idade, ao menino esquisito no vestir e no falar; do garoto que sempre colava na prova à garota que fumava. Da melhor amiga da qual apenas sabia o primeiro nome e  do colega mal educado que não andava senão de cadeira de rodas, à menina que nunca ia para a escola à pé…

Toda essa herança ingênua fez de mim desatenta para as intimidações veladas; ainda mais se feitas na escola –  para mim sempre um lugar de encontro e congruências úteis, jovens e sutis. Talvez seja por isso que, ainda hoje, nunca chego a tempo de ver o pé que se adianta no corredor e faz cair o menino, não ouço a chacota frequente ao cabelo, à roupa ou ao peso da menina, nem percebo as tintas pálidas que se costumam dar à falta de empatia e ao zelo pelo outro… Com frequência perdoo a paciência e surpreendo-me com a vitalidade na sala de aula. Também nunca reclamam a mim pelo livro “roubado” (encontrado  somente na semana seguinte), e pior, escondem de mim os fatos que, se soubesse, fariam meu coração gemer: a foto compartilhada no grupo que deveria apenas servir às lições ou o convite para a festa que restringe convidados.

Apenas uma vez, eu acho, caiu  o véu azul dos meus olhos – pesado como o manto da morte: foi quando se escancarou diante de mim o desprezo cruel (praticamente unânime) pelo garoto que não estava (como meu amigo de outrora) preso a uma cadeira de rodas,  mas que rodopiava todo dia no fundo da sala, movido pelo vento da intolerância, do desprezo e da exclusão. E neste dia chorei sentida.

Como podem? Como podem? Eu, aqui, fingindo  alfabetizar um bando de analfabetos de almas… Neste dia me senti enganada; ou a enganar-me.

Custa-me crer que deva entender de bullying na escola. Que deva proteger os filhos de uns, dos filhos dos outros; os meninos e meninas dos outros meninos (ou meninas); os estudantes dos estudantes… Custa-me crer que deva aprender a reconhecer a violência, que deva me capacitar para atendê-la. Sou de um tempo que não vai tão longe assim, mas pesa-me saber que a escola possa ser palco de violência física, psicológica, moral, sexual, material, virtual… Atordoa-me saber que o bullying não é uma ilusão e, para combatê-lo, são necessários manuais, leis, estatutos, metodologias e especialistas – sempre insuficientes para conter tamanho desamor, desafeto e descaminho humano. O que dizer?

Haverá certamente quem fale melhor sobre o bullying do que eu.

 

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Helenice Schiavon

Professora, graduada em Letras e em Pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional, Gêneros textuais, Literatura brasileira e africana. Promove vivências em Design Thinking e Empreendedorismo para educadoras. Fomenta as narrativas como parte da formação do sujeito. É Reinventora CORE.
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