A ciranda dos números

Setembro 5, 2019
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Setembro 5, 2019 Raquel Del Monde

Vamos combinar:  matemática não costuma ser a matéria preferida dos alunos. É verdade que os números e as relações que guardam entre si podem despertar interesse – até verdadeira fascinação – para mentes que buscam padrões, sistematização e lógica, mas a maior parte de nós não chega a se empolgar tanto. Ainda assim, fatos matemáticos são parte da vida de todos nós.

Números identificam e individualizam muitas de nossas referências (o número da casa ou do telefone de alguém, do ônibus que temos que pegar) e representam quantidades e valores que embasam nossas mínimas ações (medidas dos ingredientes para preparar uma refeição, os pesos que você levanta na academia, o dinheiro que você precisa sacar para pagar uma conta). Utilizamos cálculos básicos a todo momento. Ser capaz de elaborar raciocínios matemáticos é fundamental para autonomia e vida independente.

As dificuldades que alunos apresentam no aprendizado da matemática podem ser de diversas origens. Pessoas com TDAH, por exemplo, cometem erros por desatenção e por déficits da memória operacional. Pessoas ansiosas também erram com maior frequência, mesmo nos procedimentos que já dominam.

 

Mas o grande desafio vem dos alunos com discalculia – uma condição muito pouco conhecida nas escolas, embora atinja cerca de 3-5% dos alunos. A discalculia constitui um transtorno específico de aprendizagem que se caracteriza por capacidade inferior à média para resolução de problemas matemáticos em indivíduos com inteligência normal e oportunidade adequada. É uma condição neurobiológica – não é preguiça, manipulação ou falta de “treino”. Devemos suspeitar de discalculia quando um aluno demonstra dificuldade persistente na assimilação de fatos matemáticos, mesmo após abordagens individualizadas.

Existem vários tipos de discalculia,de acordo com o tipo de dificuldade identificada. A distinção é importante porque os suportes oferecidos devem ser adequados a cada uma.

Discalculia verbal: dificuldades em escrita e leitura de números, automatização na memória (tabuada), compreensão do problema. Suportes:

  • Recitar. Treinar ordens e sequencias de números cardinais e ordinais, dias da semana, meses do ano etc. Lançar mão de recursos mneumônicos para facilitar a automatização (rimas e músicas com informações numéricas). Contagem em base decimal. Contar de trás para a frente
  • Escrever sentença matemática a partir de sentença verbal.
  • Os enunciados dos problemas devem ser bem claros e objetivos, evitando informações desnecessárias ou dúbias.
  • Fornecer tabuadas e fórmulas. Disponibilizar modelos.

 

Discalculia de procedimento: dificuldade na sistematização operacional, no modo de realizar as operações matemáticas, ou seja, para “montar a conta” (posicionamento das casas decimais: unidade com unidade, dezena com dezena; executar o procedimento da direita para esquerda; reagrupar na divisão; cálculos com reserva). Suportes:

  • Uso do papel quadriculado para separação visual das casas decimais.
  • Uso de cores diferentes para realçar o sinal da operação ou aspectos relevantes do procedimento (reserva ou reagrupamento).
  • Uso do apoio visual e material concreto: envolve diversas estratégias para que o aluno “visualize” o conceito ou o procedimento em questão. Organizar objetos por tamanho e forma; dispor bambolês com objetos dentro e fora das circunferências para noções de conjuntos; utilizar pizza/ pedaços de bolo para ensino de frações; ensino da matemática com peças de Lego; permitir contagem utilizando os dedos ou pequenos objetos; material dourado.

Discalculia de magnitude: a forma mais grave, em que a pessoa não avalia plausibilidade. Por exemplo: 23 + 14 = 99. Suportes:

  • Ensinar habilidades estimativas.
  • Uso do apoio visual e material concreto, priorizando noções elementares.

 

Em todos os casos:

  • Permitir tempo extra para a realização dos exercícios. Priorizar entendimento e execução correta em relação a quantidade de exercícios e repetições.
  • Adequar tarefas e avaliações.
  • Utilizar situações do cotidiano e assuntos de interesse do aluno. Ilustrar com exemplos reais, incentivar atividades culinárias e treino para uso de dinheiro.

Não posso finalizar este texto sem mencionar que alguns alunos têm facilidade para cálculo mental e que este deve ser permitido, assim como flexibilização em relação aos procedimentos ensinados, visto que há várias maneiras de se chegar aos mesmos resultados. “Engessar” o cálculo, nestes casos, desmotiva o aluno e tira dele a possibilidade de desenvolver seu próprio raciocínio.

 

*Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE – Comunidade Reinventando a Educação

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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