Só a empatia nos salva da barbárie

Setembro 4, 2019
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Setembro 4, 2019 Guilherme Romano

Meu despertador falha, ou melhor, meu sono me trai. Dali a poucas horas, sairia meu voo; corro desesperado a fim de evitar a maior das frustrações que eu posso ter: o risco de perder minha tão sonhada viagem. Devido ao meu atraso, sou conduzido imediatamente para o check in, apresento minha passagem, o passaporte e respiro aliviado. Mas o atendente demora, olha a passagem, olha novamente o sistema e a devolve informando-me que meu nome não constava na lista do voo. Desespero, acusações, dedo em riste e um “sonoro” escândalo para enfim embarcar.

Horas depois, pouso na distante Calama, norte do Chile. Retiro na locadora o carro e pego a estrada rumo a San Pedro de Atacama, meu destino para aquela desejada semana. Pelas retas e curvas da autopista, a grandeza do Atacama já me apresentava suas credenciais: paisagens deslumbrantes enquadradas num único céu infinito. No retrovisor, observo o horizonte e a sensualidade do pôr do sol local.

Tinha em mente, nessa viagem, planos como  conhecer o Museu Gustavo Le Paige, em especial, suas múmias, o que transformou o lugar na minha primeira parada no caminho. Afoito, pago o ingresso e investigo seus containers, vestuário, cerâmica, objetos pré-colombianos e nada delas. Intrigado, pergunto à senhora responsável da bilheteria sobre as famosas múmias.

Educadamente, ela me responde que as múmias haviam sido retiradas do complexo expositivo já há alguns anos. Em tom de empatia continua:

– O respeito com o nosso passado foi feito.

Complementa, indagando-me:

Acho que você também não iria gostar de ver seus antepassados em vitrines como atrações de um museu qualquer, não é?

Dito e mais que entendido.

Segui meu caminho com essa boa provocação. Próxima parada: Pukara de Quitor, uma impressionante fortaleza onde, de tempos em tempos, os locais utilizavam para se arregimentar contra qualquer força opressora que os ameaçassem. De lá, segui para outro sítio arqueológico, a Aldea de Tulor, lugar no qual se pode conhecer a forma como viviam os atacamenhos antes da epopeia colonial. 

Nesse último, após a visita das ruínas, sou convidado pela guia a conhecer de perto a réplica de uma habitação daqueles tempos distantes. Conversa vai, conversa vem, surge a controversa pessoa do Padre Gustavo Le Paige,  cujos feitos como arqueólogo, segundo a guia, foram frutos obtidos através da exploração do povo local. Complementa me dizendo que sua infância foi marcada pelas lembranças da mãe que, em troca dos artefatos arqueológicos achados, recebia esmolas na forma de mantimentos, calçados e roupas fornecidas pelas mãos do clérigo.


É de notoriedade quase geral que esses objetosposteriormente, integravam um mercado obscurobastante lucrativo, nos países desenvolvidos. Infelizmente, esses tentáculos capitalistas também atingiram o nosso Brasil. Exemplares do Atacama, inclusive uma múmia, ganharam as galerias do Museu Nacional do Rio de Janeiro, atingido pelo fogo há um ano. Hoje, parte desse rico arsenal arqueológico é atração tanto na vizinha Iquique como em outros locais ao redor do globo.

Minha viagem prosseguiu, como não podia deixar de ser: lagunas, montanhas, vulcões, pueblos, vales e outras surpresas descortinavam-se sucessivamente diante dos meus olhos. Porém, viagens serão sempre mais do que as belas paisagens, são pontes de acesso a mundos paralelos que vão desde a cultura, passando pela política e chegando até nosso interior, ao nosso íntimo.

Desde a minha volta, após algum tempo de reflexão e, principalmente, de assimilação, novos paradigmas se apresentaram a mim a partir dessas experiências na forma de “recados”. E todos esses passavam pela distância, frieza e a indiferença que lidamos com o que não é nosso de fato.

A partir desses relatos acima, perpassam a questão indígena e também a “nossa” beligerância secular com a questão. Profanamos até os dias de hoje, suas terras, seus ancestrais, suas línguas e suas diferentes culturas, sem ao menos nos darmos conta disso. O simples fato de acessar um museu em busca dessas relíquias já é um indicativo da nossa alienação.

Para evoluirmos, dialogarmos e nos tornarmos um só povo, plural de diferenças, se faz necessário o resgate urgente do conceito da empatia, a nobre arte de se colocar no lugar do outro, antes de qualquer ação ou expressão. Só a partir da concretização desse conceito dentro de nós, arquitetaremos um futuro de pontes e de união. Os conflitos atuais e a desinformação darão lugar ao intercâmbio e a real (in)formação. E ao invés dos guetos, teremos equidade e relacionamentos horizontais duradouros.

Um pouco sobre mim:

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira agora vive o livro: Confesso que vivi, de Pablo Neruda e meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são tomar café e viajar.

Instagram: @guirmano

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