Sonhos na padaria

Setembro 2, 2019
Posted in Colunistas
Setembro 2, 2019 Helenice Schiavon

Esse texto haverá de ser curtinho, pois que curtinha foi a conversa que ouvi, sem querer, na padaria. Bem, confesso que não foi assim tão sem querer… A certo ponto percebi-me atenta ao diálogo dos dois garotos, diminuindo propositadamente a distância que me separava deles – só para saber um pouquinho mais.

Atribuo esta curiosidade à minha alma “investigativa”. Alguns chamarão isso de bisbilhotice. Eu não. Acho mesmo um presente encontrar quem se disponha a emprestar os ouvidos para uma história nos dias de hoje – ainda que, algumas vezes, tal escuta seja feita em perfeito segredo e que, por se dar na padaria, seja especialmente casual e breve.

Tenho que confidenciar, entretanto, que o motivo inicial da escuta não foi nobre; e não quero dizer com isso que tinha algum interesse em bisbilhotar. Não era tão nobre assim a escuta, admito, mas eu  não pretendia passar dos limites: a intenção não era e não foi a de tecer a eles (ou deles) qualquer julgamento ou comentário desdenhoso, negativo,  interesseiro ou maldoso sobre o colóquio que ali se dava, na fila do pão. Longe de mim estava também a intenção de ouvir a historieta apenas com o propósito de julgar às escondidas… Ao contrário: sei o quanto pode ser rico para nós, os adultos, ouvir as narrativas das crianças, adolescentes e jovens e ver como eles se percebem; como projetam suas vidas no futuro. Mais ainda, sei do deleite que pode advir de nos reconhecermos nestas narrativas; não pelos propósitos – que nunca são os mesmos – mas pelas energias e projetos de vida que sempre anunciam.

O certo é que, o que se deu ali, na padaria e naquela manhã de domingo, foi uma conversa de garotos; despretensiosa e ingênua. Longe de seus pais, discutiam eles sobre jogos e videogames, personagens tech e dicas de tutoriais da internet; que discorriam em detalhes. Uma pontinha de ressentimento bateu em mim, pois me veio a sensação de  envelhecer subitamente durante o  tempo em que os ouvia na fila do pão – tal foi o estranhamento que tive com  o léxico de seus  diálogos.

Mas maior espanto ainda estava por vir. Os dois meninos, tão diferentes em tantos aspectos,  tinham algo mais em comum do que aquela constrangedora conversa high-tech que  fazia me sentir mais velha a cada segundo. Tão logo percebi que dali poderia render uma história interessante, deixei que tomassem a dianteira na fila; apenas para ganhar tempo  e captar mais algumas palavras da nova discussão que ora se iniciava. A estratégia foi eficaz e os meninos se demoraram bastante na empreitada – e no novo argumento de conversa –  ainda mais porque na lista de compras e encomendas dos garotos  não havia somente pães que pretendiam levar quentinhos, mas também bolos e pequenas guloseimas.

Neste tempinho que fiquei na fila atrás deles, fingindo estar interessada apenas nas gostosuras da vitrina, pude ouvir a conversa. Não deveriam ter mais do que treze anos os meninos, mas o colóquio de dois ou três minutos, fez-me saber muito sobre eles; de seus recentes passados, dos seus presentes e dos seus futuros. À medida que falavam, sobre suas cabeças, eu imaginava ver desenhados – ainda que no éter – dois projetos de vida que, na padaria,  teimavam uma química:

– Então, Fábio! Isso é o que pretendo… Estou vendo uns tutoriais na internet e me aperfeiçoando… Logo logo vou fazer um curso de designer gráfico! Já falei com meus pais e talvez faça on-line! Em pouco tempo, quero arranjar um emprego e trabalhar com isso. Mais pra frente, talvez uma faculdade, não sei…

– Ah, não, Rafa, isso não… Preciso te contar uma coisa… Estou guardando um dinheirinho e, daqui a uns cinco anos, quando eu já tiver dezoito, penso de ir para fora do país… Talvez estudar durante o dia e trabalhar à noite, de garçom… Conheço um monte de jovens que está fazendo isso… Você deveria fazer o mesmo… Nós dois deveríamos fazer o mesmo… Formamos uma dupla e tanto!

– Ah, Fábio, sei não… Precisamos ir tão longe? E a família? E a língua, tão diferente? Será?

– Ora, Rafa! Ninguém disse que vamos morar fora e viver lá para sempre! A gente trabalha, trabalha e volta!

– É, pode ser… Preciso pensar…

A conversa foi interrompida quando, por detrás do balcão, o atendente perguntou se queriam mais alguma coisa…

– Ah, sim, claro! Mais oito pãezinhos e dois sonhos, por favor!

O projeto de vida pode se dar sim na padaria. Principalmente se ela tiver sonhos.

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Helenice Schiavon

Professora, graduada em Letras e em Pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional, Gêneros textuais, Literatura brasileira e africana. Promove vivências em Design Thinking e Empreendedorismo para educadoras. Fomenta as narrativas como parte da formação do sujeito. É Reinventora CORE.
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