Um projeto no museu

Agosto 30, 2019
Agosto 30, 2019 Helenice Schiavon

Quem nunca se pegou pensando sobre a quais estradas lhe conduziu a vida? Em outras palavras, sobre como poderia ter sido se tivesse feito escolhas diferentes? Ou tido oportunidades diversas?

Quem nunca? Eu mesma, vez ou outra, me deixo levar por estes questionamentos solitários, incompartilháveis, quase secretos. Fico então a imaginar meus pais, sentados frente a frente nas cadeiras retrô (e vermelhas) da  sala de almoço da nossa casa, a discutir meu futuro… E o que decidiam? Ah, que eu haveria de ser feliz! Essa seria a aspiração máxima do casal… E, sejamos justos, já seria o bastante.

Pouco importaria se minha educação se daria na escola pública ou privada, se tiraria carteira de motorista aos 18 ou, por vontade, somente aos 21, se faria a faculdade quase na rua de casa, apenas para não ter que ir para a cidade grande… Pouco importaria se, num ato de rebeldia absoluta, eu não trocasse de forma alguma o ofício amoroso da escrita por um intercâmbio na América! E é então que me pego a pensar no tempo em que nem sonhava em ser jornalista e já era mãe; e, no tempo em que nem sonhava mais em ser mãe, e fui professora… Quem nunca?

Mas isso, admito, é passado. Hoje é bem diferente: bem cedo as novas gerações de pais e mães pensam os futuros de seus filhos – às vezes, de forma inconsciente (e menos pragmática que os de outrora) é verdade, mas pensam. Nem é preciso um exercício de muita  imaginação para comprovar o que digo; basta que se vá ao museu. Ou à padaria. Parece incompreensível, a este ponto, que se possa entender o esforço das novas gerações de pais em pensar os futuros de seus filhos num museu. Mais alegórico ainda é pensar que se empenhem nisso numa padaria. Mas foi o que se deu, no último sábado e domingo do mês de agosto.

Comecemos pelo sábado. Era começo da tarde. O museu, estupendo na surpresa. Nos últimos andares, a escada magnífica do casarão subia e descia quatro séculos – das gravuras e documentos do século XVI aos livros e objetos do século XIX.  Mas ainda não foi ali que vi alguém pensando o projeto de vida de uma criança. Ou de um adolescente. Ou de um jovem. Nem foi também no andar de baixo, onde os que se fingem de adultos na vida, ali podiam se fazer crianças… Foi mesmo naquele que poderia ser chamado de “porão” do museu – onde se expunha a história do nosso país em carne viva – que havia umas fotos. Elas teriam passado quase despercebidas para mim se não tivesse ouvido a fala encantada de um pai para seu filho, que não tinha mais de dois anos… Ele dava explicações da geografia impressa na foto, fazia referências históricas, balbuciava palavras numa língua estrangeira dizendo que era assim que se falava naquele lugar… A criança ouvia atenta, entre um pulinho e outro, e repetia as palavras.

Fiquei a imaginar o que se passava na cabeça daquele pai, ali, com uma criança de dois anos, a  se esforçar por fazer sentido àquele que sequer era, de fato, um lugar, mas sim a imagem de um lugar… Senti vizinho de mim a vontade do pai em fazer viva, de alguma maneira, a experiência de estar num museu, e que aquilo, embora alucinante, certamente se repetiria por anos e anos a fio; apenas para habituar a criança ao olhar, ao lugar, ao cheiro que tinha o museu – e que seria o de todos os museus de sua vida. Não tive coragem de ficar ali por mais tempo a encarar o pai projetando, ao menos, o dia em que os degraus daquela magnífica escada, que subia e descia, não fossem tão altos para o seu filho.

Essa contemplação não durou para mim mais do que um minuto; suficiente para pensar em todos os projetos que chamei de meus em vida. Para pai e filho, entretanto, foi duradouro e, certamente, apenas o início de uma vida e seu projeto.

Quanto ao domingo na padaria? Bem essa será outra história.

Helenice Schiavon – Professora, graduada em Letras e em Pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional,  Gêneros textuais, Literatura brasileira e africana. Promove vivências em Design Thinking e Empreendedorismo para educadoras. Fomenta as narrativas como parte da formação do sujeito. É Reinventora CORE.

Para informações e inscrições: Workshop: desenho do projeto de vida

Helenice Schiavon

Professora, graduada em Letras e em Pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional, Gêneros textuais, Literatura brasileira e africana. Promove vivências em Design Thinking e Empreendedorismo para educadoras. Fomenta as narrativas como parte da formação do sujeito. É Reinventora CORE.
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