Neurociência aliada à educação ajuda no aprendizado em sala de aula

Agosto 30, 2019
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Agosto 30, 2019 Core
Aprender é um ato automático do ser humano. Dessa forma, o desenvolvimento do conhecimento depende desse processo de descoberta para a retenção da informação. E, na sala de aula, o aprendizado é exercitado por meio das diversas metodologias pedagógicas e estratégias aplicadas pelos professores. Esses, que durante a convivência com os alunos se deparam com situações como dificuldade para aprender, desmotivação e até falta de atenção durante aula. Mas o que muitos não sabem é que a neurociência aliada à educação pode explicar e ajudar a encontrar uma solução para um aprendizado mais eficaz.

A neurociência estuda o funcionamento do sistema nervoso, o que inclui o estudo de como o cérebro funciona. Hoje, é possível dizer que a neurociência ajuda os educadores a conduzir o processo de ensino-aprendizagem, levando os alunos a internalizarem diversos conteúdos acadêmicos de forma mais rápida e eficaz.

Com o propósito de compreender a mente humana, a neurociência vem auxiliando educadores a identificarem como o cérebro se comporta quando entra em contato com novas informações. Esse processo é comum no dia a dia escolar, porém eram poucas as informações sobre a reação da mente durante o aprendizado de novos conteúdos.

 

 

A neurociência e a pedagogia nunca conversavam. Ainda há uma distância considerável entre elas, o que não é bom, mas cada vez mais o conhecimento sobre o cérebro e como ele assimila as informações vem sendo útil para ampliar os horizontes de professores e alunos na sala de aula. “Existe um conjunto de pesquisas importantes sobre os caminhos do aprendizado no cérebro, mas não sabíamos como usar este material na classe. Eu mesma, quando fiz faculdade, sentia falta desse conhecimento nos clássicos da pedagogia”, diz a pedagoga Katia Chedid, que acabou se especializando justamente em neurociência aplicada. Ela também é Reinventora na CORE – Comunidade Reinventando a Educação. No site da organização, é possível baixar um e-book sobre Neurociência e Educação, além do  curso online, ministrado por Katia Chedid, sobre o mesmo tema.

A neuropsicóloga Leonor Guerra sinaliza que as pessoas não aprendem da mesma forma e na mesma intensidade e, ao perceber o comportamento do aluno, novas estratégias devem ser adotadas. “Os professores precisam contextualizar os conteúdos que são apresentados aos estudantes. Se o estudante não vê sentido, valor, naquilo que está estudando, ele não terá motivação, vontade de se dedicar à tarefa. Sem motivação você não planeja, não escolhe, não age e não se dedica às atividades e tarefas necessárias para formar memórias e aprender o que você precisa ou quer aprender”.

Todo professor gostaria de compreender a mágica do ensinar e aprender, mas sabemos que essa mágica não existe, muito menos receitas infalíveis para aprender. O que estudos da neurociência mostram é  que a aprendizagem resulta da reorganização da estrutura cerebral, produzindo novas construções do conhecimento. Assim, o professor pode contar com conhecimentos da psicologia cognitiva e da neurociência  para direcionar suas práticas pedagógicas voltadas para uma aprendizagem mais eficiente.

É importante lembrar que o aluno só aprende algo novo, se o cérebro dele tiver oportunidade e for motivado a processar o que lhe é apresentado, pois aprendizagem resulta da reorganização de redes neurais espalhadas pelo cérebro, sendo que essas redes precisam ser ativadas para que as sinapses sejam feitas e desfeitas, levando à modificação da relação entre os neurônios o que chamamos de neuroplasticidade, e assim a novos conhecimentos, ideias, atitudes, habilidades, etc.

 

 

1- Utilizar Recursos Multissensoriais

A primeira estratégia   a ser destacada é o uso de recursos multissensoriais para ativação de múltiplas redes neurais que estabelecem associações entre si proporcionando um pensamento mais complexos sobre o que se aprende e também favorecendo a memorização do que foi aprendido.

Por exemplo, conhecer uma maçã vendo sua cor e forma, sentindo sua textura, temperatura e peso, apreciando o seu cheiro, degustando sua acidez e doçura e ouvindo o barulho ao mordê-la é bem diferente de conhecê-la por meio de uma imagem em um livro. Quando o professor faz o aluno utilizar os vários sentidos em uma experiência, ele proporcionará ao estudante construir uma ideia mais completa e potencialmente mais duradoura daquela experiência. Assim, a rede neural que estabeleceu a partir da ativação de neurônios relacionado às várias sensações sensoriais dá um significado mais completo, detalhado e rico sobre a maçã que poderá ser mais facilmente reativado por qualquer estímulo, seja ele o cheiro, a invocação de sua forma ou de seu gosto. Reativação mais frequência dessa rede neural levará a melhor consolidação da memória da fruta.

2- REativar os circuitos neurais, REcontando, REvendo, REpassando e RElembrando

A segunda estratégia é a reativação dos circuitos neurais, isso quer dizer que as experiências e informações aprendidas precisam ser lembradas para manter as conexões cerebrais relacionadas a elas. Por isso o professor deve sempre oferecer situações em que os alunos possam ver e rever, escutar, falar e voltar a falar, escrever e reescrever, contar e recontar, experimentar e vivenciar dando significado ao que se faz, pois essa é uma estratégia importante para o aprendizado ser consolidado.

Ou seja, quando as informações, experiências e aprendizados são relembrados em várias situações, por diversas vezes de diferentes maneiras promoverá a atividade mais frequente dos neurônios relacionados a ele e produzirá sinapses mais consolidadas. Esse conjunto de neurônios associados numa rede é o substrato biológico da memória daquela aprendizagem em formação ou experiência aprendidas. Os registros transitórios que é a memória operacional serão transformados em registros mais definitivos que faz parte da memória de longa duração à medida que eles forem processados novamente pelo cérebro.

Isso quer dizer que quando um professor finaliza sua sua aula, ele sempre deveria perguntar o que você entendeu sobre o que foi apresentado ou explicado, ou poderia solicitar aos alunos que explicasse para um colega o que entendeu da aula ou ainda incentivar todos os aprendizes a elaborar um texto relembrando as principais informações apresentadas ou ainda motivar por meio de perguntas a discussão de tópicos da aula entre os colegas. Essa estratégia daria aos alunos a oportunidade de usarem a memória operacional que ainda estiver processando a aula, para fazer associações e comparações com outros conhecimentos e experiências já armazenados na memória e relacionados ao que foi apresentado. Dessa maneira o aluno poderá perceber lacunas no seu entendimento sobre o tema abordado.

3- Usar as emoções

A terceira estratégia que o professor deve utilizar para conduzir os alunos a uma aprendizagem mais eficiente é a utilização de emoções, pois influenciam funções importantes como a atenção, percepção e memória. Aprendemos aquilo que nos emociona, pois as emoções indicam para o cérebro o que é importante à sobrevivência do indivíduo e o que vale o esforço e gasto energético necessários à aprendizagem.

No cérebro as áreas que regulam as emoções relacionadas ao medo, ansiedade, raiva, prazer e  motivação influenciam áreas importantes para formação de memórias. O professor deve se utilizar de situações que favorecem a aprendizagem como aquelas que são prazerosas e motivadoras que produzam curiosidade  e expectativa. Ativação de circuitos neurais de prazer e recompensa no aluno o fará perder o medo de errar, por exemplo.

4- Atividades em grupos

A quarta estratégia que o professor pode utilizar são as atividades baseadas em discussões em grupo e desenvolvimento de projetos, pois assim pode favorecer que o aluno seja um participante ativo, sujeito responsável por sua aprendizagem, o que também contribui para o desenvolvimento de suas funções executivas.

Funções executivas, relacionadas à área pré-frontal, são funções cognitivas envolvidas no estabelecimento de objetivos, planejamento e organização das sequências de atividades voltadas para uma meta, gerenciamento do tempo, atenção direcionada ao objetivo, persistência em uma tarefa, memória de trabalho, flexibilidade para mudar estratégias, tomada de decisão e, também, na regulação emocional e nas habilidades sociais.

Nesse sentido, é importante destacar que atividades desenvolvidas em grupos são essenciais para o desenvolvimento da capacidade de uma pessoa resolver problemas e avaliar o próprio comportamento, regulando-o para melhor adaptação a determinado contexto. Tornar o aluno participante ativo, sujeito responsável por sua aprendizagem também contribui para o desenvolvimento de suas funções executivas.

5- Alternância de atividades

A quinta e última estratégia é o professor se utilizar de alternância de atividades durante sua aula, principalmente aulas longas, sem intervalos e com conteúdos muito densos que são propícios às distrações. O professor pode se utilizar de pausas para contar um caso curioso, mudar a entonação de voz, posição do professor na sala de aula, produção de textos e vídeos para estimular o cérebro a se manter atento e sem distrações.

Sabermos que no contexto da sala de aula, cujo ambiente é rico, variado, dinâmico e influenciado por tantos fatores, muitas situações inesperadas podem ocorrer, mas pesquisas recentes tem se voltado para investigações sobre o funcionamento do cérebro e como a aprendizagem ocorre na perspectiva da neurociência .

Não tivemos a pretensão de apresentar ‘receitas infalíveis’ para aprender, mas algumas estratégias pedagógicas fundamentadas pelos conhecimentos neurocientíficos da aprendizagem que podem ajudar os professores a tornar esse processo mais eficiente.

 

Neurociência e Educação na formação de professores

A neuropsicológica Leonor Guerra considera que, como os conhecimentos da neurociência vêm sendo bastante relevantes para a educação, principalmente na forma como o cérebro reage ao ambiente e ao aprendizado, é fundamental que a matriz curricular dos cursos de Pedagogia inclua os assuntos ligados à neurociência e à educação.

“Os cursos de Pedagogia e Licenciatura deveriam começar a incorporar na sua matriz curricular os conteúdos de neurociência e neuropsicologia da aprendizagem. Ou seja, agregar a perspectiva da neurociência, principalmente a chamada psicologia cognitiva, para que os futuros pedagogos, professores nas mais diversas áreas, pudessem pensar a aprendizagem no ponto de vista do funcionamento cerebral. Seria um ganho muito grande para a formação dos professores”, defende Leonor.

Como o professor pode enriquecer o processo de ensino e aprendizagem usando as contribuições da neurociência?  Para o educador português António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa, responder à questão é o grande desafio do século 21. “A estrutura educacional de hoje foi criada no fim do século 19. É preciso fazer um esforço para trazer ao campo pedagógico as inovações e conclusões mais importantes dos últimos 20 anos na área da ciência e da sociedade”, diz.

Ao professor, cabe se alimentar das informações que surgem, buscando fontes seguras, e não acreditar em fórmulas para a sala de aula criadas sem embasamento científico.

“A educação deve favorecer a aptidão natural da mente em formular e resolver problemas essenciais e, de forma correlata, estimular o uso total da inteligência geral. Esse uso total pede o livre exercício da curiosidade, a faculdade mais expandida e a mais viva durante a infância e a adolescência, que, com frequência, a instrução extingue e que, ao contrário, se trata de estimular ou, caso esteja adormecida, de despertar.”

(MORIN, 2000).

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