Escrevendo a própria história

Agosto 29, 2019
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Agosto 29, 2019 Raquel Del Monde

A escrita, de modo amplo, abrange habilidades cognitivas (ideação, capacidade de elaborar conteúdo significativo com clareza), linguísticas (domínio das particularidades semânticas, morfológicas-gramaticais e pragmáticas da linguagem) e grafo-motoras (do registro propriamente dito). Mas vamos agrupar as duas primeiras no tema “produção de texto”, do qual trataremos mais à frente, e focar nos aspectos de motricidade envolvidos na escrita em si, nosso tema de hoje.

Se eu fizesse um ranking das questões que limitam o aproveitamento escolar dos alunos neurodiversos, a resistência à escrita estaria entre os primeiros lugares. Ainda assim, esta é uma dificuldade interpretada no viés comportamental pela quase totalidade dos educadores. Ou seja, é sempre traduzida como preguiça.

É compreensível que, dentro do senso comum, a recusa em escrever (copiar da lousa ou da apostila, dar respostas completas, caprichar na letra) por parte de aluno sem nenhum tipo de deficiência aparente possa mesmo levar o professor a pensar em malandragem e indolência. Mas, na verdade, grande parte desse processo ocorre dentro do cérebro e não nos músculos das mãos e braços. É no cérebro que são gerados os comandos que originam nossos movimentos voluntários. Cada pequeno gesto obedece a uma ordem emitida pelo nosso cérebro: para onde você dirige seu olhar, a direção certeira do movimento do seu braço para pegar um objeto, o controle da força para tarefas delicadas.

 

 

Obviamente, alguns movimentos são mais complexos que outros, exigem mais do nosso planejamento motor. É curioso que a maior parte de nós entenda facilmente situações extremas (por exemplo, um AVC que deixe a pessoa sem movimentos em determinada região do corpo), mas não consiga entender que o funcionamento do nosso cérebro não é binário, do tipo “tudo ou nada”. Algumas dificuldades são mais sutis e prejudicam apenas as atividades mais complexas. Então, sim, é possível que uma pessoa consiga realizar algumas tarefas e outras não (ou as realize ás custas de um esforço desproporcional, que não conseguimos mensurar). As dispraxias fazem parte daquele grupo que chamamos de “dificuldades invisíveis”. Alunos com diversas condições podem apresentar dispraxia: paralisia cerebral, síndromes genéticas, TEA, TDAH.

Dito isso, afirmo com convicção que não acredito em “preguiça de escrever”. Na verdade, já testemunhei incontáveis vezes o progresso absurdo que esses alunos apresentam quando são compreendidos e recebem o suporte adequado (e também já testemunhei o estrago causado na ausência dele).

 

 

Quando um aluno sistematicamente resiste à realização de uma atividade que demanda planejamento motor (não só a escrita, mas também desenhos, pinturas, recortes etc), pense sempre na possibilidade de dispraxia.

Vamos aos questionamentos mais frequentes e respectivos suportes:

1Se o aluno não realiza a atividade proposta para a classe, ele vai ficar sem fazer nada?

  • Claro que não! Ofereça uma maneira alternativa de executá-la (sempre existem maneiras alternativas), priorizando o objetivo da atividade.
  • Para crianças do Infantil, ofereça superfícies que permitem movimentos mais amplos (folhas grandes), em diferentes posições (plano inclinado, lousa vertical) e diferentes materiais (gizão, adaptadores para lápis, tesouras adaptadas, pincéis grossos, os próprios dedos com tinta!). O uso de alfabeto móvel, banco de sílabas e banco de palavras muitas vezes promove o engajamento instantâneo de alunos que antes se recusavam ao traçado.
  • Respeitar a lateralidade da criança.

Para os maiores:

  • O uso de materiais alternativos continua valendo. Acrescento que alunos com alterações sensoriais podem ter preferências incomuns (por exemplo: para alguns, a fricção do grafite no papel é muito aversiva, mas o uso de canetas é confortável).
  • Reduzir a cópia escrita que não for essencial ao seu aprendizado (eliminar exigência de cópias de enunciados, cabeçalhos, de matéria que estiver disponível em apostila ou de outro modo). Isso inclui muitas vezes a cópia da lousa. Ouço professores protestando a essa orientação com o argumento de que o aluno dá conta de copiar. A pergunta é: mas a que custo? A cópia da lousa exige uma integração tão complexa de movimentos que o esforço despendido nisso (desproporcional em relação aos outros alunos) impede que a criança preste atenção à explicação e assimile o conteúdo.
  • Oferecer maneiras alternativas de executar exercícios e tarefas: permitir que circule ou sublinhe as respostas em cores correspondentes às questões, ao invés de escrevê-las por extenso; permitir que digite pesquisas e trabalhos (a demanda na digitação é muito menor que na escrita manual); utilizar questões de múltipla escolha ou fazer avaliações orais.
  • Adequar a exigência das atividades de escrita e das tarefas de casa, de acordo com a tolerância do aluno.

 

2 – A grande polêmica: letra bastão ou letra cursiva?

Essa é uma briga constante (e, a meu ver, desnecessária) com algumas escolas. As diversas maneiras de grafar devem ser oferecidas. Mas a escolha é do aluno.

3 – Será que não melhora com caderno de caligrafia?

Um quadro de dispraxia não se resolve com a simples repetição mecânica. Ter oportunidades de exercitar as habilidades motoras é importante para todos, mas é algo que deve estar de acordo com o perfil de cada um. Do contrário, é só mais um fator de exclusão.

 

*Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE – Comunidade Reinventando a Educação

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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