Os Jardins dos Baobás

Agosto 28, 2019
Posted in Colunistas
Agosto 28, 2019 Guilherme Romano

Meu primeiro contato com essas árvores milenares se deu por meio dos livros infantis, lá na minha meninice.  Página à página, palavra por palavra, a força do baobá instou dentro de mim o mesmo temor que nutria o Pequeno Príncipe contra a sua voracidade. Posteriormente, me deparei com ele, novamente, também, pela leitura, descobrindo que Exupéry furtou a indumentária de um velho Baobá recifense para compor seu Pequeno Príncipe.

Além das referências literárias, o que diferencia o baobás das outras árvores dentro do meu universo particular, é a sua forma, mais precisamente,  a sua silhueta. Essa conjugação de altura e largura, desde que me entendo como gente,  sempre cativou de alguma forma meu olhar. Uma curiosidade é que, por dentro, esse gigante é oco, o que propicia à árvore, talvez, a maior das suas valias: a morte da sede. Dizem alguns, que os baobás chegam a armazenar, no auge da sua vida adulta, cerca de cem mil litros de água, o que faz com que sejam reconhecidos como “árvores garrafa” pelo mundo.

E,  da certeza de que onde há água, há gente, nasce a nossa proximidade com os baobás. A partir dessa relação, a versatilidade dessa grande árvore ganha contornos que vão além da água: ela serve de moradia em algumas localidades da África além da oferta óbvia de sua madeira e seus frutos, entre outros usos. Ultimamente o baobá ganhou o status de garoto propaganda para que novas hordas de turistas visitem a formosa Ilha de Madagascar.

Essa peculiar parceria conosco, humanos, propiciou ao Baobá também tecer seus caminhos. Da velha África,  avançou confiante sobre os oceanos chegando ao nosso Brasil. As hipóteses da sua chegada vão desde a importação por parte do holandês Maurício de Nassau para ornamentação do seu jardim botânico particular,  até a intervenção por parte das aves migratórias que trouxeram suas sementes para o lado de cá do além-mar.

Porém, a hipótese mais sedutora da vinda dos baobás, para o Brasil, para nós intelectuais é a de que esse avanço ultramarino se deu pelas mãos dos sábios sacerdotes africanos pela desventura do tráfico negreiro. Segundo corroboram algumas fontes, o sacerdócio detinha à época diretrizes para semear os baobás em pontos estratégicos pelo Brasil, a fim de frutificar e perpetuar a cultura africana no Brasil.

Talvez, o maior exemplo disso, se deu em Pernambuco, na localidade de Ipojuca, onde os baobás  tutelavam, como pontos cardeais naquele passado de opressão, a rota da liberdade que rumava à Palmares, de Zumbi. Até hoje, esses lindas espécies residem por ali sendo o símbolo maior daquelas paragens.

O sincretismo em torno do baobá o alçou como um dos maiores ícones da cultura negra de resistência. Essa resiliência repousa na sua longevidade, que pode chegar a mais de seis mil anos de idade. Com relação a isso, existe ainda uma curiosa lenda que diz que se formos sepultados dentro de um baobá, nossa alma viverá enquanto a árvore persistir.

Porém, muito mais que isso, o baobá é parte integrante de nós, seja a partir das paisagens ou ainda por sua beleza em forma de fortaleza. Temos para com ele, segundo comprova o genoma, um elo histórico e capital, o elo que nos liga de volta à África, nossa mãe milenar, nossa matriz,  de onde viemos e, provavelmente, para onde um dia voltaremos.Vida longa aos nossos baobás.

 

Um pouquinho de mim

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira atualmente vive o “Livro dos Abraços”, de Eduardo Galeano e meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são tomar café e viajar.

Instagram: @guirmano

, , ,
× Precisa de ajuda?