Quem estará disposto a pensar as grandes pautas deste mundo?

Agosto 26, 2019
Posted in Colunistas
Agosto 26, 2019 Helenice Schiavon

Não quero falar dos grandes.

Em verdade, também não quero falar como os grandes, pois que, nesta condição, “cuidamos das opiniões e do saber alheios e pronto;” e isso não basta, pois “é preciso torná-los nossos”. ¹

Por estes e tais motivos, tomo aqui a palavra para falar dos “pequenos”; daqueles que vivem a energia da adolescência – quiçá da infância e da juventude – ainda além das certezas cegas, dos medos e das desesperanças.

Quero mesmo é falar dos meninos e meninas que ontem pela manhã foram à escola apenas para se encontrar com os colegas, ou simplesmente para espichar o olhar para a resposta  correta à questão mais difícil da prova de matemática, ou para fingir entender aquele texto sem fim da aula de português. Quero falar daqueles que, num momento de máxima ousadia, pegaram o celular escondido na aula de ciências, quiçá contaram um causo ingênuo para o amigo da carteira da frente em plena explicação do conteúdo que cairá na prova, ou entre um gráfico e outro da aula de geografia… Quero mesmo é falar daqueles meninos e meninas que, à tarde, cansaram as mãos para copiar do quadro o esquema ou o resumo de história que nem entenderam, que se esqueceram de fazer a tarefa, que nem lembraram da prova… Ou daqueles que suaram a camisa no jogo que mais  parecia uma disputa de vida ou de morte…

Talvez bom mesmo fosse falar dos problemas que entre eles circulam: da borracha que some, do colega que não convida para a festa, da playlist desatualizada, da tristeza que invade de repente, da gargalhada grande que oculta a aflição ou a insegurança; do cigarro escondido no banheiro, das não virtudes que sempre acometem: do desprezo, do ciúme, do erro e do vício; da avareza, da futilidade e da maldade que, se deixar,  podem crescer sem ética.

Queria mesmo era falar deles, meninos e meninas que têm a ventura de estar ali na escola – tão descontextualizada e descolada da realidade; mínima e intencionalmente protegidos da vida amplificada lá de fora.

Hoje não queria falar dos grandes, embora devesse. Talvez fosse bom gritar com eles, mostrar-lhes a saída, advertir-lhes, colocar o dedo em riste contra o descaso  com que naturalizam a violência, a desumanidade, a desigualdade e o preconceito neste mundo, neste país, nesta cidade, neste bairro, nesta rua, nesta casa. Talvez devesse gritar com eles a respeito das pessoas feitas apenas  números e estatísticas… Acertaria, talvez, se falasse com eles sobre a lama e a água que cobriram a cidade, sobre o manto axfixiado da morte que desceu impiedoso e eterno pelo mapa do país; queimando o que via pela frente e sufocando o que não vê lá adiante… Sobre o quanto parece incoerente levar as pessoas, cujos pés estão pretos e cascudos, para o outro lado da cidade, numa tentativa tola de higienizar os lugares (história que se repete pequena ou grande, tanto cá quanto lá, onde o empenho está em afogá-los nos salgados dos mares)… Não queria falar dos grandes, pois, qualquer que seja o lugar para onde olho, sei que haverá quem estará só a contemplar outro alguém a pegar uma senha que apenas garantirá um lugar na fila da morte… Hoje não queria falar dos cheiros que sinto ao lado do  maior rio da minha cidade, do ar embaçado e fumacento de dentro do ônibus que sempre se atrasa, dos desalentados e famintos que finjo não ver pela cidade e que se misturam pelos becos, bueiros e esquinas… Das calçadas que viraram quartos de dormir, das escadas históricas que cheiram à amônia e dos viadutos que fumam as virtudes. Não queria falar da falta que sinto dos museus que guardavam a história do meu país; muito menos da covardia doida que me segue todos os dias. Menos ainda ouso perguntar aos grandes por que teimam em apagar territórios, patrimônios, vozes e gentes… Por que, definitivamente?

Não, não quero falar dos grandes que alegorizam as minorias apenas para desqualificá-las. Não queria falar. Não quero falar.

Quero mesmo é falar dos pequenos (jovens, adolescentes ou crianças); ou mais, falar com os pequenos. Dizer para que continuem persistindo na vida. Que insistam em acordar aborrecidos para ir à escola, só para ouvir o que têm a dizer alguns de nós, que, embora grandes, temos a alma apertadinha como a deles… Quero mesmo é falar com os pequenos, mesmo que estejam despenteados e tenham esquecido a tarefa em cima da mesa da cozinha… Quero lhes falar sobre algo importante e que não podem deixar de saber: ainda há aqueles que, embora não sejam mais pequenos, acordam dispostos a colocar todo dia uma pauta de gente grande para eles.

Queria mesmo dizer a eles, os pequenos, que fiquem ali, nessa escola incompleta e que, entre uma conversa, uma travessura, um equívoco e outro, nos ouçam. Queria mesmo dizer a eles para estar conosco, cuidar das “opiniões e do saber alheios” mas,  por eles, nunca se deixar enganar.

Queria mesmo é dizer aos pequenos que se apressem a ouvir nosso pedido de socorro para pensar, com doçuras pequenas, as grandes pautas deste mundo.

[¹] MONTAIGNE, M. Les Essais (Ensaios),  Edição Integral; tradução de Milliet, Sergio; São Paulo: Editora 34, 2016 (1ª Edição). Pág. 175.

 

Helenice Schiavon – Professora, graduada em Letras e em Pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional,  Gêneros textuais, Literatura brasileira e africana. Promove vivências em Design Thinking e Empreendedorismo para educadoras. Fomenta as narrativas como parte da formação do sujeito. É Reinventora CORE.

 

Helenice Schiavon

Professora, graduada em Letras e em Pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional, Gêneros textuais, Literatura brasileira e africana. Promove vivências em Design Thinking e Empreendedorismo para educadoras. Fomenta as narrativas como parte da formação do sujeito. É Reinventora CORE.
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