A escola como fonte de transformação cultural e base de resiliência

Agosto 24, 2019
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Agosto 24, 2019 Jose Luiz Tejon Megido

COLUNA PEDAGOGIA DA SUPERAÇÃO

*José Luiz Tejon Megido

 

O que você diria de uma jovem com 23 anos vítima da cultura da proibição do casamento inter-castas na Índia que recebe a notícia da morte do rapaz e credita isso à própria família?

Desesperada, tenta o suicídio. Termina sendo salva pela interferência, no momento preciso, de amigos. Implora e chora pedindo a morte. Essa jovem ultrapassa essas primeiras horas de choque quase fatal e inicia uma reconfiguração de sua mente. Ao invés do suicídio, transforma isso num propósito, num sentido de oferecer sua vida e exemplo a uma nobre missão: a de ajudar a salvar muitos jovens dessa cultura. E vai iniciar uma luta pela vida, dando ao amor a chance de prevalecer.

Essa jovem indiana, minha aluna no Master na França, por acaso dessas obras do destino, estava terminando seus estudos aqui no Brasil e já com viagem marcada para a França e em seguida para a Índia, onde iria se casar. Convivi com ela intensamente neste período de transformação. E procurei entender como foi sua criação e como uma moça criada com discriminação, submetida à uma condição inferior por ser mulher, sem amor na família,  conseguia ser, apesar de tudo,  ao mesmo tempo, uma das melhores estudantes no MBA, uma jovem doce, empática e superar todas essas provações.

Descobri, então,  que o seu refúgio era a escola e dela advinha sua força. Ela me disse: “Eu fugia para ir à escola, saía o mais cedo que podia de casa, voltava o mais tarde que podia. Devo minha força às minhas escolas na Índia e aos meus professores. Não foram minha família, parentes ou vizinhos. Estou conseguindo superar esta dor pela escola.

Então, começo a compreender que a escola, desde o fundamental, pode, sim, significar uma força contra a cultura. Pode representar uma família paralela, e pode vir a ser um modelo de longo prazo para, não apenas ensinar as matérias do saber humano, mas representar uma evolução humanista. Casa de novas culturas.

Da mesma forma, indaguei  minha aluna: “Se a escola representa a mudança dos costumes, por quê os pais permitem que seus filhos estudem?

Descobri, assim, outro fator curioso: naquela cultura, os diplomas dos filhos significam status social e ficam pendurados nas paredes das casas ou dos estabelecimentos comerciais para que todos possam ver.

Dessa forma, não proibidos de ir às escolas, ali desenvolvem um preparo paralelo com acesso ao multiculturalismo. Escola como fonte de transformação cultural, escola como base de resiliência.

Porém, ao tratarmos de um caso individual como esse da minha aluna, nos deparamos com um gigantesco iceberg frio e perfurante de uma massa milenar cultural, onde jovens são mortos e se suicidam ao tentarem amar e casar-se com alguém de uma casta diferente. Apavora a ideia da morte poder significar liberdade. Nos deixa assustados e nos faz lutar com todas as forças num “stand by meao lado de uma jovem brilhante, íntegra e ética como essa aluna indiana.

Existem leis na Índia proibindo esses fatos, porém o magma da cultura vira um tsunami de horror enterrando e afogando milhões. Como educador, fica a imensa curiosidade de saber em profundidade como conseguimos fazer de escolas um núcleo de acolhimento, educação de valores e formação de resiliência em crianças onde o amor está longe de ser “amai-vos uns aos outros“. E logo olho para dentro do nosso Brasil e me pergunto: quais são os crimes culturais que aqui praticamos sem o saber? Não iguais ao das inter-castas, porém diferentes. Mereceríamos uma profunda autocrítica também, sem dúvida.

Esta aluna parte agora para sua luta na Europa e, talvez, na volta à Índia. Desejo e espero que a imagem das suas escolas faça prevalecer um sentido superior pelo qual valha a pena ficar, lutar e viver. A pedagogia do amor... Se quiser voltar ao Brasil, volte. Nossa casa não é perfeita, mas que possamos fazer das imperfeições o motivo superior do aperfeiçoamento.

Não ficamos mais os mesmos sob o choque dos beijos amargos das realidades. Mas isso nos ajuda a separar sonhos de ilusões. Ilusão é o engano dos sentidos e da mente. Sonho é um desejo ardoroso e veemente. Sonho é tudo o que fazemos com a realidade. E ilusão é o que a realidade faz conosco, enquanto nos iludimos. Aluna indiana: sonhe, não se iluda.

Prof Dr. José Luiz Tejon Megido www.tejon.com.br .

Dr. em Ciências da educação pela UDEUruguayMestre em educação, arte e cultura pelo Mackenzie Jornalista, publicitário. Coordenador do agribusiness Center da FECAP, do Mba FAM na audiênciabusiness school, Nantes , França. ProfincompanyFGV. Medalha do mérito acadêmico da ESPM. Membro do conselho da secretaria de justiça e cidadania do estado de São Paulo.

 

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