Filosofia e arte transformando a quebrada

Agosto 22, 2019
Posted in Inspiração
Agosto 22, 2019 Core

Maria Vilani Gomes, de 68 anos, é uma educadora que faz florescer arte no bairro do Grajaú, periferia do extremo-sul de São Paulo. “Houve uma transformação em mim quando mergulhei nessa quebrada”. É assim que Maria fala sobre o bairro. Cearense, a professora aposentada partiu de Fortaleza ainda jovem com o marido para tentar um futuro longe da fome. “O Ceará não tinha emprego e a gente vivia uma situação muito deficitária, a sobrevivência era difícil. Queríamos ter filhos, mas não queríamos que eles passassem por tudo aquilo que estávamos passando. Decidimos, então, viajar para São Paulo.”

“Eu vim pro Grajaú quando não tinha pra onde ir. O Grajaú me acolheu. Cheguei em São Paulo como a maioria dos nordestinos naquela época: sem nada no bolso, com um monte de sonhos na cabeça e sem ter pra onde ir. Vim para casa de pessoas conhecidas da minha mãe em busca de emprego. Eu havia casado recentemente e queria ter filhos. Chegou um momento que eu poderia ter saído daqui, só que eu já estava enraizada. O Grajaú é o meu país. Houve uma transformação em mim quando eu mergulhei nessa quebrada, quando eu comecei a criar”, conta

 

No barraco em que a família morou nos anos 80

Na capital paulista ela fincou raízes e, também, palavras. Na década de 1990 criou o Centro de Arte e Promoção Social (CAPSArtes) e desde então é responsável por plantar a filosofia no cotidiano dos moradores da região.

“Eu sempre quis fazer algo a mais do que simplesmente cuidar de mim e de minha família, porque eu entendo a humanidade como uma grande família. Nós não podemos abraçar a todos, mas eu acredito que nós temos responsabilidade sobre a humanidade que permeia o nosso entorno”, explica. “Desde adolescente, eu já desenvolvia um trabalho social voluntário. Em São Paulo, assim que as crianças (os filhos) começaram a se desenvolver a crescer um pouquinho mais, nós começamos juntos a desenvolver esse trabalho comunitário”, complementa.

A sensibilidade fez com que Dona Vilani logo percebesse a arte que emanava do lugar. “Eu tinha uma recreação infantil e pensei em fazer uma feira para expor os artesanatos que as mães das crianças produziam. Acabei descobrindo uma infinidade de artistas no bairro”, conta.

O Grajaú é famoso pela veia cultural que carrega e já revelou nomes como o rapper Criolo, filho de Vilani. “Aqui tem gente oriunda de todo lugar que você possa imaginar. E, como o poder de criação é imanente ao ser, esse povo se juntou e um começou a mostrar para o outro o que sabia fazer”, lembra.

Sobre o filho famoso, responde sobre se a incomoda ser procurada como mãe do Criolo: “Fico muito feliz, mas tento dizer para as pessoas que não sou a mãe do Criolo. Eu sou a mãe do Kleber (nome de nascimento do rapper) e ele que criou o Criolo. Ele é o único responsável, porque eu não tive condições de ajudá-lo, não tive participação nessa aparição, nessa criação que é o Criolo. Então eu sou mãe mesmo do Kleber e ele carrega o Criolo. De uma certa forma ele me projeta. As pessoas me conhecem por causa dele e ser mãe dele é uma alegria, mas também uma responsabilidade muito grande. Porque ele realmente é um ser especial, iluminado.”

Quem vê Dona Vilani se preparando para lançar o sexto livro — “Abscesso”, de poemas — nem imagina que quando chegou em São Paulo ela mal tinha completado o período escolar.

“Eu me alfabetizei com retalhos de jornais, quando tinha 10 anos”, relembra. Ela só voltou à escola em 1992, para fazer o Ensino Médio na mesma sala que Criolo. Hoje, é formada em Filosofia e tem especializações em Literatura, Semiótica, Filosofia Clínica e Pedagogia.

Quando se deu conta, a professora já tinha criado o CAPSArtes na cozinha da própria casa. “Eclodiu e foi uma coisa maravilhosa. Em seguida, a gente montou um grupo de escritores, fez uma carreata poética, grupos de teatro, circo na rua e foi uma efervescência muito grande”, conta.

Isso tudo na década de 1990, quando o extremo-sul de São Paulo era conhecido pelos altos índices de homicídio e violência. Hoje, o Centro tem endereço próprio: Rua Jequirituba, 325, no Grajaú. As atividades são diárias e gratuitas.

Café filosófico: uma das atividades do centro cultural

As rodas de poesia, saraus e oficinas de escrita deram voz a pessoas que, antes, nem se imaginavam artistas. Um deles é o Vinicius Rossato, que publicou o livro “Tudo é problema com Bruno” através do selo editorial CAPSIANOS, uma criação da Dona Vilani para publicar os escritores que participam do ateliê de escrita do CAPSArtes.

A professora é mãe de cinco filhos, e o centro de artes foi uma das maneiras que encontrou de levar a cultura para mais perto deles. “Ser mãe é um desafio em qualquer lugar do mundo e principalmente na periferia, a miséria consegue destruir qualquer tipo de sensibilidade”, comenta.

“Eu me lembro que em 2009 criei o Café Filosófico e veio um jornalista falar comigo assim ‘mas você vai criar um café filosófico na periferia?’. Eu comecei a chamar o povo e eles perguntavam ‘café com o que?’ e eu levava garrafões de café e bolacha. Hoje eu não coloco um café e as pessoas vão filosofar”, conta Vilani.

Entrevista de Rodrigo Vergara, editor de conteúdo da editora Trip, com a educadora Maria Vilani 

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