A leitura como código de acesso ao mundo e meio de inclusão

Agosto 22, 2019
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Agosto 22, 2019 Raquel Del Monde

Ler é uma habilidade fundamental na nossa vida. Além de ser a principal ferramenta para a aprendizagem, utilizamos a leitura para uma infinidade de atividades do cotidiano: lemos as notícias do dia, mensagens, listas de compras e afazeres, receitas culinárias, informações gerais do ambiente.  É praticamente um pré-requisito para a autonomia (sem falar que também lemos por puro prazer!).

A leitura constitui um aspecto da comunicação verbal, aquela que utiliza palavras para expressar ideias e conceitos. A fala (linguagem oral) faz uso das palavras enquanto símbolos sonoros. A escrita transforma símbolos sonoros em símbolos gráficos. Portanto, é um código que precisa ser aprendido para ser decifrado.

 

Aprender a ler é um processo de decodificação, que envolve identificar e entender palavras escritas. Na maior parte das vezes, as habilidades de linguagem oral aparecem como um dos mais importantes fatores para o aprendizado da leitura. Inicialmente as crianças associam a escrita com as palavras que escutam, depois aprendem a associação explícita entre os sons da fala com as letras (símbolos gráficos que compões o alfabeto). A partir das sílabas mais comuns, vão adquirindo competência para decodificar palavras novas, com padrões ortográficos cada vez mais complexos. No decorrer deste processo, é esperado que as crianças concentrem-se primeiro em decodificar palavras individuais, para depois entender o significado das sentenças, até tornarem-se leitores fluentes e alcançar a interpretação de elementos implícitos do texto.

A leitura requer a participação de diversas áreas cerebrais (processamento auditivo, visual e cognitivo). Portanto, existem várias razões possíveis para que um aluno apresente dificuldades na leitura. A dislexia é apenas uma delas. Não é dever do professor fazer diagnóstico, mas é sua função conhecer os sinais de alerta que podem indicar um problema numa criança que está apresentando dificuldade na alfabetização. Caso observe dispersão significativa, pobreza de vocabulário, dificuldades de nomeação e de automação (“decorar” rimas, canções, dias da semana, meses do ano, alfabeto etc), erros persistentes na escrita (trocas, inversões, omissões, aglutinações), queixas sensoriais (incômodo acentuado com iluminação ou sons, tontura, dor de cabeça), confusão entre direita e esquerda ou dificuldades motoras, vale a pena encaminhar para uma avaliação.

 

É importante notar que dificuldades de leitura não ocorrem num padrão binário, de tudo ou nada (como todas as outras dificuldades, aliás). Crianças disléxicas, por exemplo, podem ler palavras mais “fáceis” (formadas por sílabas simples, pequenas, que aparecem com muita frequência), mas enroscam quando o nível de dificuldade aumenta um pouco. Também deve chamar a atenção dos educadores aqueles alunos que não progridem em relação à fluência da leitura, que tem dificuldades em compreender o que leem e especialmente aqueles que apresentam discrepância em seu desempenho oral (mal conseguem ler um parágrafo, mas são capazes de recontar uma história que ouviram com riqueza de detalhes.

As adaptações pedagógicas devem ser oferecidas de acordo com as necessidades de cada um.

 

Para alunos que apresentam problemas no processamento visual (baixa visão, distúrbios do sistema visual magnocelular ou Síndrome de Irlen):

  • Impressão diferenciada do material escolar: uso de diferentes cores de papel ou tinta, tamanho e fonte das letras.
  • Uso de lentes corretivas, quando indicado.
  • Uso de cartões de leitura (cartões que são “vazados” de modo a mostrar uma linha de cada vez).
  • Manipulação de material multissensorial: modelar as letras com argila, massinha, cordões (ajuda a assimilar informações da estrutura espacial das letras), uso de letras em EVA ou madeira.

            Para alunos com dificuldades no processamento auditivo:

  • Estimulação de competências metalinguísticas (consciência fonológica, sintática, morfológica e metatextual).
  • Uso de comunicação efetiva (vide texto anterior): linguagem clara e bem objetiva.
  • Utilização de elementos visuais (imagens, vídeos, mapas, gráficos).

            Para todos:

  • Fornecer cópia pronta da lousa.
  • Dar preferência a textos mais curtos e objetivos.
  • Leitura de enunciados em voz alta e assistência individualizada.
  • Maior tempo para execução de tarefas e avaliações.
  • Considerar a realização de provas orais.
  • A escolha de livros paradidáticos deve estar adequada às habilidades do aluno, podendo ser diferenciada em relação à classe.
  • A introdução da letra cursiva deve ser pensada caso a caso.
  • Não devemos nos ater rigidamente a uma ou outra abordagem específica na alfabetização: enquanto que para alguns o construtivismo pode ser favorável, para outros (neuroatipicos em geral) o método fônico é a melhor escolha. Quem sinaliza é o aluno e não a linha adotada pela escola.
  • Cuidados importantes: evitar expor o aluno em situações como leitura em voz alta; ter bom senso na correção ortográfica da produção do aluno (priorizar regras relevantes e combinar com o aluno como serão cobradas); apoio da escrita (uso de modelos) ou ensino oral de Língua Estrangeira.

*Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE – Comunidade Reinventando a Educação

 

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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