O Nosso Sempre Estrear

Agosto 20, 2019
Posted in Colunistas
Agosto 20, 2019 Guilherme Romano

Estrear é para todos nós um rito. Antes mesmo de debutar, o resultado final da estreia se cristaliza na forma de críticas ou até de elogios em nossas mentes. Esse futuro, delineado pelo inconsciente e dilacerado pelo consciente, tem uma única certeza: a de que nunca irá se realizar de forma fidedigna.

Diferentemente disso, a estreia, seja ela a dos palcos ou pelos gramados da vida, se dá no momento em que somos guiados pela experiência, pela intuição, pelo improviso e, alguns ainda, pelo talento. Ao final, simplesmente estreamos para o novo, seja para o bem, seja para mal.

Estrear uma coluna é paradoxalmente diferente por ser, talvez, ainda mais angustiante. No mundo do texto não existe o momento e o final. Não é simplesmente pegar a camisa, calçar as chuteiras, cair no jogo e estrear. Aqui, procrastinamos o momento pelos excessos de zelo e de preparação até o soar do gongo. Porém, também aqui, o inverso é verdadeiro: pela mesma preparação e pelo   zelo é que derrotamos, por fim, a angústia e o nosso jogo vira.

Essa sutileza em forma de vitória é de via única e se dá pela experiência. Muito de mim, de quem lhe tem a honra de escrever, vem de diversas estreias. Até onde a minha memória me permite, lembro-me de ter estreado como pirata, polícia, ladrão, banqueiro, jogador de futebol, médico, advogado, entre outros tantos. E a somatória dessas vivências é o que posso chamar de experiência. Não se trata de uma experiência tradicionalista, mas de um tipo de experiência empírica, calcada na arte do brincar.

Talvez, o meu melhor exemplo se tenha dado numa tarde de verão na varanda solar do velho sítio da família. Ali, fui ninguém menos que Jacques Cousteau, o mais amado dos franceses. À época, o explorador singrava pelos rios amazônicos mostrando-nos toda a riqueza da baía Amazônica. E eu, munido de um gorro vermelho, me voluntariei para um show de entrevistas de meus primos e irmãos. Ao lado de Julio Iglesias e sob o foco intimidador da filmadora VHC, fui ser sabatinado pela fictícia rainha dos baixinhos.

Discorri inicialmente sobre a Amazônia, sobre as técnicas de mergulho e depois, de improviso, ganhei as altitudes e as latitudes, só parando nos segredos das ariranhas. Ao final, ganhei aplausos, os mais importantes da minha vida,  oferecidos pela minha plateia favorita: minha família. Desse momento, dessa confirmação, anos depois, extraí a estratégia da vitória sobre as angústias das estreias e, consequentemente, das agruras dos desafios.

A superação deles se dá no exato ponto cuja estreia (ou qualquer desafio) é diminuída pela força do brincar.  Àquele tempo, íamos sem muito planejamento, de peito aberto e de coração na mão contra tudo e todos. As consequências dos atos não faziam parte da ação, eram inexistentes e completamente ignoradas por nós. E o mundo se transformava ao nosso redor, girava em torno de nós e aquele momento único se eternizava.

Hoje, no mundo adulto, busco a todo instante essa essência, renegando máscaras, preconceitos, paradigmas, dogmas e crenças para, enfim, acessar a leveza do meu eu na forma do ato de brincar. Faço esse esforço a fim de superar meus desafios e as consequentes estreias da vida. Logicamente,  essas interferências ainda prosperam, porém, cada vez menos.

Quando se atinge o ferramental do lúdico, tem-se a certeza da mitigação do desafio, a quase certeza do sucesso, porém, acima de tudo, ganha-se o ingresso para o teatro dos sonhos. Essa “fórmula” permite que todos nós possamos estrear em qualquer campo ou palco, desafiar-nos e evoluir, e até escrever uma coluna. A criança dentro de nós tem esse poder de fazer das pesadas nuvens o nosso sol de cada dia. Basta confiar e deixar que o empirismo, a prática  que nos traz experiência,  ganhe cada vez mais espaço e luz dentro de nós.

Um pouquinho de mim

Meu nome é Guilherme Frossard Romano. Sou paulistano de coração. Escrevo, fotografo e nas horas vagas administro empresas. Sou formado pela ESPM e tenho predisposição pelo cinema e pela literatura latino-americana. Na minha cabeceira atualmente vive o “Livro dos Abraços”, de Eduardo Galeano e meus vícios, não necessariamente nessa ordem, são tomar café e viajar.

Instagram: @guirmano

 

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