Por que Singapura quer reduzir foco em notas nas escolas: “aprender não é uma competição”

Agosto 15, 2019
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Agosto 15, 2019 Marcia Ameriot

Destaque em avaliações e rankings educacionais internacionais, Singapura agora tem o desafio de ultrapassar as notas altas e voltar-se para o desenvolvimento do indivíduo. Os talentos de cada estudante estão sendo respeitados? Os alunos são capazes de serem gentis e ajudar os outros? Essas são algumas das questões que o país pretende solucionar, de acordo com o professor da Escola de Políticas Públicas da Universidade de Singapura (NUS) Saravanan Gopinathan.

“As notas acadêmicas por si só não refletem que tipo de pessoa as obteve. O mundo do futuro, que vai ser muito mais complicado, muito mais imprevisível e fluido, vai exigir um nível de maturidade socioemocional para que ele possa lidar com imprevisibilidade”, diz.

“A preocupação é: como asseguramos que as crianças sejam indivíduos diferentes, que sejam vistas como tendo certas preferências, talentos e ansiedades? Como os professores entendem isso e como o currículo e como a pedagogia refletem essa mudança que precisamos fazer?”, acrescenta.

Gopinathan é um dos palestrantes do curso oferecido pela NUS para líderes do ensino superior. O professor destaca ainda o papel dos professores nesse processo: “Nenhum sistema educacional pode ser melhor que os seus professores e, por isso, passamos muito tempo pensando em como selecionar os professores, como prepará-los e como fazer com que eles se aperfeiçoem e vejam a carreira docente como uma carreira para a vida”.

 

Competitividade

Há alguns dias, em comunicado à imprensa, o Ministro da Educação, Ong Ye Kung, anunciou mais uma medida para melhorar ainda mais o sistema educacional do país: o fim do ranking de notas entre os estudantes, com o objetivo de mostrar que “a aprendizagem não é uma competição”.

Voltar o ensino para capacidades socioemocionais é algo que tem sido feito em várias partes do mundo. A própria Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aprovada pelo Brasil em 2017 para o ensino infantil e fundamental e, em 2018, para o ensino médio, prevê que em todo o período escolar sejam desenvolvidas, além de capacidades acadêmicas, também habilidades socioemocionais.

Singapura, ao tratar dessas questões, mantém-se alinhada ao que está sendo debatido no restante do mundo e talvez, mais uma vez, posicione-se entre os melhores também nesse quesito.

 

Importância da educação

Estar entre os melhores do mundo é algo estratégico para Singapura. A cidade-Estado não dispõe de fonte de recursos naturais para manter a própria economia. A saída encontrada desde que separou-se da Malásia e passou a ter a configuração atual, em 1965, foi investir em pessoal e mostrar-se boa o suficiente para ser necessária ao mundo. “O custo da liderança é muito alto e nós não podemos custear falhas”, diz Gopinathan.

Uma das escolhas que foram feitas, ainda na década de 1960 já pensando no crescimento econômico da região, foi ter o inglês como língua oficial nas escolas. Ao todo, são quatro: além do inglês, mandarim, malaio e a língua indiana tamil. A maior parte da população, 75%, é chinesa. Mesmo assim, optou-se pelo inglês já pensando na internacionalização, de acordo com Gopinathan.

Hoje, Singapura, que até a década de 1960 era um país em desenvolvimento, é considerada desenvolvida. Atingiu o status de melhor cidade do mundo para se fazer negócios e tem o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) entre os países asiáticos e o 11º melhor do mundo, segundo dados de 2014 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

“Se se tem uma economia forte, você pode ir a exposições, pode ir para concertos, se não tem uma economia forte, nada disso é possível. A educação é para que as pessoas possam criar empregos”, diz o professor adjunto da NUS N. Varaprasad, sócio do Grupo de Consultoria em Educação de Singapura, que também é um dos palestrantes do curso.

O sistema de ensino é baseado em excelência. Na própria universidade, os alunos são encorajados a morar nas residências estudantis. Isso porque a universidade fica distante das áreas residenciais da cidade e, quanto mais tempo no campus, mais tempo estudando.

Nesse contexto, deixar a competitividade de lado e respeitar as emoções não parece algo simples. Ambos professores usaram em suas falas a mesma expressão: “Amanhã, alguém poderá estar comendo o seu almoço”. Gopinathan complementa: “Estamos sempre estressados e sempre correndo. O medo do desemprego é muito alto”.

 

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Marcia Ameriot

Bacharel em Comunicação pela PUC - SP e jornalista.Há mais de 30 anos atua no Terceiro Setor, tendo dirigido grandes fundaçōes. Desenvolveu sua carreira em Comunicação em veículos de comunicação como Folha da Tarde, Revista Pequenas Empresas Grandes Negócios. Especialista em Gestão de Organizações do Terceiro Setor pela FGV - SP, é Reinventora CORE e Diretora de Comunicação da Associação.
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