Você já ouviu falar do transtorno de processamento sensorial?

Agosto 9, 2019
Agosto 9, 2019 Raquel Del Monde

Falar de acomodações sensoriais é fácil e difícil ao mesmo tempo.

Fácil porque as ações destinadas a possibilitar a participação das pessoas com Transtorno do Processamento Sensorial nos diversos ambientes, respeitando e atendendo às suas necessidades específicas, são simples e descomplicadas. Não exigem extenso preparo técnico, nem materiais sofisticados.

Difícil porque a maior parte das pessoas desconhece completamente o que é Transtorno do Processamento Sensorial (TPS). Sequer imaginam como é o dia a dia de quem faz um esforço gigantesco para lidar com estímulos e situação que são tranquilos e naturais para o resto do mundo, do quanto isso pode causar sofrimento e limitações na vida de uma pessoa, a ponto dela desistir de tentar participar de algumas atividades. Além do desconhecimento, com frequência enfrentamos uma barreira atitudinal: a convicção de muitos, originada de um senso comum primitivo que dita que “as pessoas tem que se adaptar ao mundo e não o mundo a elas”. Uma premissa que vai contra toda a luta por acessibilidade no mundo.

Vamos entender um pouco melhor o que é o TPS. Nosso sistema nervoso funciona como uma interface entre nosso organismo e o ambiente. Somos equipados de mecanismos que nos trazem à consciência as informações necessárias para qualquer ação de nossas vidas: nossos sentidos. Alguns deles (visão, audição, tato, paladar e olfato) trazem informações do ambiente externo e outros (propriocepção e vestibular) trazem informações sobre o que está acontecendo do lado de dentro (sensações como fome, sede, dor, mal estar etc) e sobre os aspectos físicos e dinâmicos do nosso corpo em relação ao espaço (importantes para manter a postura, o equilíbrio, o controle das funções motoras).

Pessoas com TPS apresentam uma “desregulação” desses sentidos e isso faz com que as sensações cheguem em intensidades muito mais altas ou muito mais baixas que o normal. Quando muito mais altas, dizemos que a pessoa é hipersensível e sua tendência natural é fugir ou evitar aquele determinado estímulo. Quando muito mais baixas, dizemos que a pessoa é hipossensível e sua tendência natural é buscar aquele estímulo.

O TPS pode ocorrer isoladamente, mas em geral está associado a condições do neurodesenvolvimento, como o TDAH ou o autismo. Sua expressão é extremamente variável, a depender de qual sentido está afetado por ela. Para complicar, não é algo do tipo “tudo ou nada”: a hipersensibilidade pode ser bem específica (não para todos os sons, apenas os de determinada frequência sonora, não para todos os cheiros ou para todas as texturas), pois depende do tipo de elemento neurológico envolvido. Além disso, uma pessoa pode ser hipersensível a um estímulo e hipossensível a outro, então podemos ter muitos perfis diferentes. O assunto é bem complexo e o profissional indicado para a avaliação e intervenção é o terapeuta ocupacional com formação em Integração Sensorial. Na nossa conversa de hoje, vamos falar apenas das manifestações mais comuns de cada modalidade sensorial no contexto escolar e de como podemos ajudar.

Transtorno de processamento sensorial (TPS) é uma condição na qual o cérebro tem dificuldade para receber e responder à informação que vem através dos sentidos.

Audição: é a alteração sensorial mais conhecida do autismo (e uma das mais frequentes). A cena de um autista tapando os ouvidos com as mãos é retratada em vários filmes. De fato, a hipersensibilidade a barulhos pode ser um problema sério para a permanência de alguns alunos na escola, em salas de aula barulhentas, em momentos mais caóticos como horários de entrada e saída, em eventos especiais (festas juninas, apresentações de final de ano) etc. Os suportes são definidos segundo a necessidade de cada um e podem incluir permissão para uso de fones abafadores de ruído ou para fazer determinadas atividades em ambiente mais calmo (biblioteca, sala da coordenação), dispensa de participação de alguns eventos (como execução de hinos, discursos com microfone, apresentações), adaptação de aulas de música (tive um paciente que fazia a aula com auxílio de fones com volume controlado).  O diretor da escola de outro paciente teve a sensibilidade de mudar o sinal (que anuncia o recreio e a troca das aulas) para evitar o sofrimento do aluno (que realmente não tolerava aquele som). Recentemente, uma escola americana deu ao mundo uma lição emocionante de respeito a um aluno autista em sua formatura.

Visão: pode ocasionar dificuldade com alguns tipos de iluminação artificial, discriminação de figura-fundo e de determinadas fontes. Suportes podem incluir impressão diferenciada de materiais (cor do papel, tamanho e tipo da fonte), redução da cópia da lousa, mudanças na iluminação ou uso de lentes.

Olfato: a hipersensibilidade a odores (geralmente de alimentos, mas também de produtos de limpeza, perfumes etc) pode causar grande mal estar, náuseas e até vômitos. Suportes podem incluir mudança de produtos utilizados e permissão para trazer o próprio lanche ou lanchar em ambiente separado dos demais (idem para paladar e alunos com seletividade alimentar extrema).

Tato: intolerância ao contato a roupas (determinados tecidos, costuras, etiquetas, bordados – pode incluir justamente o uniforme escolar!), calçados e texturas (materiais diversos utilizados em trabalhos escolares). Suportes podem incluir permissão para adaptações possíveis no uniforme (alterações no tecido, impressão no lugar de bordados) e opções para uso de materiais alternativos na realização das atividades.

Hipersensibilidade é quando a criança apresenta muita sensibilidade aos estímulos

Propriocepção e vestibular: as manifestações no ambiente escolar incluem diferenças no padrão de movimentação motora (crianças extremamente agitadas, que não param, ou, ao contrário, apáticas demais), posturas corporais atípicas (maneiras de sentar na carteira, de segurar lápis, de escrever), alterações no tônus muscular, resistência para a escrita ou para execução de outras atividades, estados de fadiga. Os suportes podem variar muito, de acordo com as necessidades de cada um e podem incluir a alternância de atividades mais livres com aquelas mais estruturadas, uso de cartões de saída (saídas estruturadas, com quantidade, local e duração pré-definidas que permitem que o aluno se regule e seja capaz de “render” no resto do período) adaptações da escrita (teremos um texto falando só disso mais para a frente), mudanças na disposição das salas de aula (isso exige uma revisão de conceitos! Pesquisem sobre as salas de aulas nos Estados Unidos ou Canadá que oferecem carteiras com pedais ou bolas de Pilates para alunos agitados!).

Sim, ainda estamos engatinhando no que se refere a acomodações sensoriais no Brasil. Mas precisamos começar de algum ponto! A Andrea Werner, do Lagarta Vira Pupa, fez um texto com dicas muito legais e simples para fazer em casa e que também podem ser adaptadas para a escola. Empatia e criatividade, muitas vezes, são tudo que precisamos!

Raquel Guimarães del Monde é médica formada pela USP Ribeirão Preto. Fez residência em Pediatria pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM – Unicamp). Especialista em Pediatria pela Associação Médica Brasileira e Sociedade Brasileira de Pediatria. Especialista em Psiquiatria da Infância e Adolescência (FCM – Unicamp), é Diretora do Núcleo Conexão, grupo multidisciplinar de avaliação e intervenção em transtornos de aprendizagem, desenvolvimento e autismo. Autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE – Comunidade Reinventando a Educação.

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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