Rejeitamos também o que tememos perder

Agosto 5, 2019 Irene Reis dos Santos

“Um indivíduo não é apenas uma pequena parte da espécie humana. O todo da espécie está presente nele, em seu patrimônio genético, em cada célula, está presente até mesmo em sua mente, que depende do funcionamento do cérebro. O ser humano é simultaneamente biológico, psíquico, cultural, social, histórico. É essa unidade complexa da natureza que se encontra completamente desintegrada no ensino disciplinar, e que torna impossível aprender o que significa ser humano. É necessário restaurá-la, de modo que cada indivíduo, onde quer que esteja, tenha conhecimento e consciência de sua identidade singular e, ao mesmo tempo, de sua identidade comum com todos os outros seres humanos. Por isso a condição humana deveria ser o objeto essencial de todo ensino.” (Morin, 2015, p. 141).

Em uma tentativa de responder sobre quem somos, podemos dizer que somos uma massa psicofísica: corpo, mente e cérebro, programados para garantir a sobrevivência de cada um de nós e a perpetuação de nossa espécie.

Daí que tenhamos tanta dificuldade para lidar com a morte, com o luto, com todos os desdobramentos de perder alguém que amamos. Esta dor absurda fica armazenada em nosso cérebro. Este, programado para garantir a sobrevivência, como dissemos, age de maneira a lutar ou fugir, aproximar-se do que dá prazer e correr bem longe do que provoca dor.

O luto provoca dor, profunda, dilacerante, medonha. Numa tentativa desesperada de evitar esta dor, como recurso de sobrevivência, nosso cérebro pode armazenar um programa que a evite, a partir da rejeição às pessoas que amamos. Isso é consciente? Não!

Daí vem o que os estudiosos da mente humana chamam de sabotadores. Pode ser que alimentemos alguns deles para que nos convençamos de que amar muito alguém provoca perda, a perda provoca dor, a dor, o sofrimento e a fuga seja entendida como a melhor saída.

Inconscientemente, abrimos mão de quem amamos, deixamos de cuidá-lo, de demonstrar este amor. Nosso sabotador nos convence de que esta pessoa precisa crescer e, para isso, precisa caminhar sozinha, sem nossa proteção ou companhia. Convencemo-nos de que estamos nos distanciando desta pessoa por ela, para o bem dela, quando lá,naquele lugar escurinho do cérebro, a verdade é que é por nós, porque tememos perder este amor, tememos passar por aquela dor tremenda de novo e só queremos antecipar isso para que acabe logo, convencidos que estamos de que a vida é assim.

Como mudar esta programação? Iluminando esta verdade, tirando-a do armário, acolhendo isso e mudando os programas anteriormente instalados, conscientes de que é mais difícil desaprender do que aprender.

O papel da morte é servir de alerta para que possamos dar valor à vida. Conscientes disso, precisamos fazer dela, a vida, algo mais leve, com propósito, prazer, amor e cuidados. A vida é muito curta para que tentemos mudar alguém, para que exijamos que o outro seja nossa projeção e espelho.

O outro é ele, apesar de nós. Podemos caminhar juntos, com todas as nossas diferenças, apoiando-nos e pedindo apoios, sem medo do fim, sem tentar adivinhar quando ele virá, sem tentar antecipar o sofrimento para que, afinal, ele acabe logo.

Um bom amigo sempre te oferece perguntas e este é o meu papel:

Será que você está se distanciando de alguém por medo a perdê-lo, a ter de encarar, novamente, o luto? O que você anda temendo perder? Quem você tem rejeitado por alimentar este medo?

Como a educação pode contribuir para que não só a sobrevivência, individual e da espécie, seja garantida, mas também para que desenvolvamos nossa humanidade, a partir de temas universais como a vida e a morte? Que lugar estas temáticas e debates ocupam na agenda escolar?

Irene Reis dos Santos

Referências para avançar na temática:

MORIN, Edgar . Ensinar a viver: um manifesto para mudar a educação. Tradução de Edgard de Assis de Carvalho e Mariza Perassi Bosco. Porto Alegre: Sulina, 2015.

GUERRA, Leonor B; COSENZA, Ramón M. Como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011.

CÉSPEDES. Amanda. Educar las emociones. Barcelona: Ediciones B, 2008.

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