Sua escola é segura e acessível?

Agosto 1, 2019
Agosto 1, 2019 Raquel Del Monde

Vocês estão ligados que a minha coluna semanal aqui na Core é dedicada a suportes educacionais? Então fica aí a sugestão, aproveitando a volta às aulas: toda quinta-feira, um texto falando de assuntos importantes para que um dia deixemos de falar em inclusão escolar. Para que todos os alunos encontrem na escola um ambiente seguro, bacana e que respeite seus modos de aprender e de expressar seus conhecimentos.

Este é o nosso quarto texto. Nesta fase inicial, estamos falando dos suportes que chamamos de acomodações, aqueles que não pertencem à esfera didática-pedagógica, mas que são essenciais para permitir a participação de alunos com diferentes características (isso está explicadinho no segundo texto).

Sinto que muitas pessoas consideram acomodações como assuntos de menor relevância por não estarem diretamente ligados com o processo de aprendizagem em si, mas estão enganadas. Precisamos ter alicerces sólidos para poder construir uma casa.

Na semana passada, falamos de comunicação efetiva. Hoje vamos falar do ambiente (em termos de estrutura física e atitudes) e das razões pelas quais ele importa.

  1. Segurança: preservar a integridade física e psíquica dos alunos também é da responsabilidade da escola. Crianças e jovens passam uma boa parte do seu tempo nesse ambiente. Escola é lugar de crescimento, não de vivências traumáticas.
  • Espaço protegido, que evite que crianças saiam sem supervisão, colocando-se em risco, e que impeça a entrada de pessoas não autorizadas. Além das barreiras físicas (muros, grades) é necessário haver procedimentos bem definidos para entradas e saídas e controle dos responsáveis por levar ou buscar crianças (lembram-se, por exemplo, dos casos de pais divorciados em que um deles aproveitou essa brecha para fugir com a criança?).
  • Dependências escolares supervisionadas: já atendi dois casos de abuso sexual ocorridos dentro de banheiros de escolas renomadas, em que o abusador era um aluno mais velho. Abrange vigilância para álcool e drogas. Há justificativas válidas para as atividades dos monitores.
  • Manutenção adequada de prédios, equipamentos e mobiliário.
  • Higiene do espaço. Proporcionar condições e materiais para higiene dos indivíduos.
  • Garantia de atendimento das necessidades básicas dos alunos: oferecer alimentação adequada (merenda nas escolas públicas) e água potável. Permissão para idas ao banheiro conforme a necessidade de cada um. É importante dispensar atenção especial para alunos com problemas de saúde que exigem flexibilização das regras da escola (como o lanche de alunos com diabete ou alergias alimentares, uso de medicamentos pala alunos com asma ou outras condições crônicas).
  • Política anti-bullying rigorosa.
  • Ações educativas voltadas a toda comunidade escolar (incluindo temas como diversidade, convívio social, educação sexual) e treinamentos em relação a situações emergenciais, como incêndios.
  • Regras de convivência adequadas à cada faixa etária, claras e bem sinalizadas.
  • Resguardar a privacidade e a dignidade dos alunos. É inaceitável que professores ou funcionários exponham as dificuldades dos alunos. Colocar um aluno gago ou disléxico para fazer leitura em voz alta na frente da classe, por exemplo, ou apontar defeitos físicos ou qualquer outra vulnerabilidade, mesmo que “de brincadeira” são atitudes que precisam ser coibidas. Já tive inúmeros relatos de alunos que eram chamados em voz alta dentro da sala, na frente de seus colegas, para ir à secretaria tomar seu remédio controlado. Algumas escolas públicas (pasmem!) afixam nos corredores listas de todos os alunos e aqueles que tem diagnósticos de alguma condição, tem estes diagnósticos escritos na frente de seus nomes.
  1. Acessibilidade: a educação inclusiva propõe que a escola ofereça condições para que todos os alunos participem das atividades e aprendam.
  • Vagas de estacionamento para pessoas com deficiência.
  • Rampas de acesso para cadeirantes.
  • Carteiras para canhotos.
  • Estruturação do ambiente para promover boa circulação de todos, sinalização dos diferentes espaços e disposição funcional de móveis e carteiras
  • Material diferenciado (para atividades pedagógicos na sala de aula, educação física e artes) para pessoas com qualquer déficit sensorial ou motor.
  • Comunicação efetiva (ver texto anterior: https://www.coreduc.org/2019/07/25/falar-nao-e-comunicar-se/).
  • Uso de tecnologia assistiva.
  • Assistência individual quando necessária.

Na próxima semana, falaremos das acomodações sensoriais.

 

Raquel Guimarães del Monde é médica formada pela USP Ribeirão Preto. Fez residência em Pediatria pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM – Unicamp). Especialista em Pediatria pela Associação Médica Brasileira e Sociedade Brasileira de Pediatria. Especialista em Psiquiatria da Infância e Adolescência (FCM – Unicamp), é Diretora do Núcleo Conexão, grupo multidisciplinar de avaliação e intervenção em transtornos de aprendizagem, desenvolvimento e autismo. Autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE – Comunidade Reinventando a Educação.

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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