Falar não é comunicar-se

Julho 25, 2019
Julho 25, 2019 Raquel Del Monde

Comunicação é sempre o primeiro ponto que precisa ser abordado. Não só quando falamos em suportes educacionais, mas em qualquer tema que envolva relacionamentos humanos. Dificuldades de comunicação estão por trás de grande parte dos problemas que enfrentamos nas escolas – tanto comportamentais quanto de aprendizagem. E ainda assim, comunicação efetiva é um conceito notoriamente negligenciado nos ambientes escolares, por puro desconhecimento.

Comunicação não é sinônimo de fala, de linguagem oral, como muita gente presume. Comunicação é a transmissão de mensagens entre duas ou mais pessoas. Para que uma mensagem seja efetivamente transmitida, temos que considerar aspectos do emissor (quem está enviando a mensagem), do receptor (quem está recebendo a mensagem) e do código utilizado (tipo de linguagem em que a mensagem é apresentada).

Emissores e receptores podem diferir muito em suas características perceptivas (deficiências sensoriais como surdez ou baixa visão/cegueira ou déficits de processamento), cognitivas (atenção, memória, nível intelectual, tempo de processamento de informação), linguísticas (domínio dos códigos de linguagem verbal e não verbal em seus vários níveis) e motoras (que interferem na produção da mensagem). Todos nós somos emissores e receptores ao mesmo tempo, pois a comunicação é sempre uma via de mão dupla. Entretanto, é importante notar que nossas habilidades podem ser muito diferentes nessas duas funções, pois elas desenvolvem-se e podem ser afetadas de forma independente. Citando um exemplo evidente, uma pessoa que sofreu um derrame que tenha atingido a área da linguagem pode não ser mais capaz de produzir a fala de forma inteligível, mas mantém perfeita compreensão. É importante também se certificar que as pessoas envolvidas compartilham o código utilizado. Imagine uma conversa telefônica com alguém que fale uma língua desconhecida, sem tradutor: não haverá comunicação, por melhor que sejam as habilidades de comunicação dos interlocutores.

Portanto, assegurar comunicação efetiva implica reconhecer os pontos frágeis deste sistema em casos individuais e implementar ações para compensá-los.

Os alunos que se beneficiam deste tipo de suporte podem ser bem diferentes entre si: deficientes auditivos/visuais e intelectuais, pessoas com distúrbios específicos de linguagem ou transtornos psiquiátricos, TDAH, disléxicos, autistas. Devemos considerar suas particularidades para oferecer modificações capazes de otimizar a transmissão da mensagem. Para fins didáticos e práticos, escolhi classificar essas modificações em três categorias:

1 . Alterações no código utilizado: quando mudamos de fato a maneira de apresentar a informação.

Língua de sinais (LIBRAS), braille, sistemas de comunicação aumentativa e alternativa. São modificações mais especializadas, que exigem formação e/ou orientação de outros profissionais.

  1. Uso simultâneo de duas ou mais modalidades de linguagem para ampliar o alcance da mensagem por mais de um canal perceptivo.

Principalmente o uso simultâneo de linguagem verbal oral e escrita e de linguagem verbal e não verbal (que inclui mímica facial, gestos, posturas, sinalização do ambiente, imagens, fotografias, vídeos, mapas, gráficos). O apoio visual auxilia na sinalização do ambientes e materiais, da rotina diária e da sequência de passos das tarefas; fornece modelos; estimula atenção e memória; facilita o entendimento das explicações e dos enunciados de exercícios e avaliações.

  1. Refinamento da linguagem convencional para torná-la mais clara e acessível.

Inclui medidas simples e de grande relevância para boa parte dos alunos. Vamos mencionar algumas delas, sem a menor pretensão de esgotar o assunto, apenas para demonstrar como alguns detalhes podem fazer uma enorme diferença:

  • Usar sempre linguagem clara e direta, sem figuras de linguagem ou duplo sentido. Ser explícito em relação ao que se espera (especialmente útil para alunos com DPAC e autistas com entendimento literal).
  • Valorizar a dicção, inflexão de voz e mímica facial. Tom de voz baixo (importante para pessoas com hipersensibilidade auditiva).
  • Fracionar comandos complexos. Dar tempo para que o aluno processe a informação. Certificar-se de sua compreensão.
  • Validar a intenção comunicativa do aluno, verbalizando a mensagem inferida. Auxiliá-lo na nomeação de ações, objetos e sentimentos.

 

Comunicação é a base de toda aprendizagem e de toda interação humana.

Raquel Guimarães Del Monde – Médica pela USP Ribeirão Preto. Fez residência em Pediatria pela Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM – Unicamp). Especialista em Pediatria pela Associação Médica Brasileira e Sociedade Brasileira de Pediatria. Especialista em Psiquiatria da Infância e Adolescência (FCM – Unicamp). É Diretora do Núcleo Conexão, grupo multidisciplinar de avaliação e intervenção em transtornos de aprendizagem, desenvolvimento e autismo. Autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”.

 

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Raquel Del Monde

Dra Raquel Guimarães Del Monde é pediatra e psiquiatra infantil com atuação em desenvolvimento, aprendizagem e autismo. É autora do livro “Na dose certa – o que mais o pediatra tem a dizer”. É Mentora da CORE - Comunidade Reinventando a Educação.
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