Prática de mindfulness no ambiente escolar pode trazer benefícios a alunos e professores

Julho 20, 2019
Julho 20, 2019 Core

O conceito de meditação mindfulness ficou popular no universo de empresas como maneira de aumentar o foco e a produtividade no ambiente de trabalho, além de trazer bem estar para os funcionários. A técnica acabou  saindo do escritório e chegando também às escolas, com objetivos parecidos do mundo empresarial: melhorar o rendimento dos alunos de uma maneira saudável.

Mas antes de conhecermos locais que adotam o método, é preciso entender no que consiste esse conceito nascido nos Estados Unidos. “Prefiro não traduzir a palavra mindfulness, defino como: estar presente no momento em que você vive”, explica o professor Maurício Pietrocola, doutor da Faculdade de Educação da USP. Entre aulas de meditação, exercícios de respiração, atividades com objetos de diferentes texturas e dinâmicas em grupo, a ideia é “um princípio norteador que se aplica em vários contextos diferentes”, conta Pietrocola.

O cientista e médico Jon Kabat-Zinn pode ser considerado o organizador do desenvolvimento da presença mindfulness para o ocidente. Ele realizou o primeiro programa de Consciência Plena em 1979, na Escola de Medicina da Universidade de Massachussets e obteve muito sucesso em pacientes com dor crônica e quadro de estresse.

Jon juntou sua longa experiência pessoal com o budismo zen e a ioga, com seu background científico, criando um programa estruturado de oito semanas para a prática e ensino de mindfulness. Ele define mindfulness como “o estado de consciência que surge quando prestamos atenção – com propósito – no aqui e agora e sem julgamento.”

Prática no ambiente escolar

O uso das práticas de atenção plena (mindfulness) nos ambientes educacionais tem se tornado cada vez mais frequente em todo o mundo. Sabe-se que elas ajudam os estudantes a aprimorar a atenção em classe, a regular melhor suas emoções e a adquirir maior habilidade nas inter-relações sociais.

A prática de mindfulness envolve treinar a atenção voluntária, portanto é de esperar que ocorra alteração na capacidade atencional da pessoa que medita. E isso é precisamente o que ocorre. O esforço em focar a atenção promove modificações nos circuitos que a sustentam e no córtex do cíngulo anterior, o que aumenta a habilidade de permanecer consciente do momento atual: a capacidade de estar realmente presente, e não perdido em divagações.

Um estudo dos psicólogos Matthew Killingsworth e Daniel Gilbert, da Universidade de Harvard, mostrou que o ser humano se distrai em 46,8% do tempo. Foram analisadas cerca de 2.250 pessoas que respondiam a perguntas sobre concentração por meio de um aplicativo que notificava-as em intervalos irregulares. Foram selecionados participantes dos mais diversos perfis socioeconômicos.

“O nosso ponteiro interno de tempo fica apontado para o futuro. Vivemos o que queremos fazer amanhã, ou daqui 10 minutos”, comenta Pietrocola. “A escola não está fora desse contexto social. Imagine uma criança que tem estímulos de todo lado, a mente se rebela contra focar em um momento único”.

Sobre os benefícios do mindfulness entre os estudantes, ele lembra da experiência em uma escola no Brooklyn, EUA. “Nessa instituição os alunos eram de baixa renda, e tinham uma carga emocional muito alta. Eles aplicavam todo dia meditações por 5 minutos, traziam especialistas para falar sobre os benefícios dos exercícios”, explica. “Isso lhes ajudou  a encontrar um equilíbrio emocional, e se conectar melhor com os professores”.

Projetos envolvendo o conceito também aparecem em locais voltados para crianças de baixa renda. Na Associação Beneficente dos Funcionários do Grupo Allianz (ABA), em Engenheiro Goulart, Zona Leste da cidade, aulas aplicam a metodologia gratuitamente para crianças que frequentam unidades de ensino da rede pública na região. “Incentivamos as crianças a observar o corpo, a forma e o tom que respondem e principalmente exercitar a empatia”, explica a diretora do local, Rose Oliveira. Os pequenos se matriculam na instituição, que oferece atividades durante toda a semana. “Temos os momentos de “prática da respiração consciente” e de “acalmar o coração” “, lembra ela.

Dar aos alunos a possibilidade de parar por alguns minutos, fechar os olhos, respirar e manter o foco apresenta-se, afinal, como oportunidade de ao menos quebrar o ritmo acelerado ao qual estão acostumados e são submetidos todos os dias.

Inteligência emocional

Em Porto Alegre (RS), o projeto SENTE, iniciativa do Infapa (Instituto da Família de Porto Alegre), leva o mindfulness como parte de um programa de educação socioemocional às crianças da rede pública desde 2007. Os alunos do 5º ano – que estão a um passo de passar por uma transição, do ensino fundamental 1 para o 2 – passam por 12 intervenções oferecidas pelos voluntários do projeto, que incluem, entre outras atividades, a prática do mindfulness. O programa já atendeu cinco escolas, e realiza as intervenções em até quatro turmas por semestre.

“Os benefícios mais comuns relatados tanto por alunos quanto por professores estão relacionados à melhoria das relações interpessoais, o desenvolvimento de habilidades de regulação emocional que diminuem a reatividade, um aumento no bem estar e maior solidariedade entre os alunos”, conta Klaus Hensel, supervisor e professor no curso de mindfulness e educação socioemocional do SENTE.

Ao ensinar a técnica para os alunos, o projeto os leva a pensar duas vezes antes de, por exemplo, entrar numa briga com um colega. O psiquiatra e psicoterapeuta José Ovídio Waldemar, criador do projeto, costuma dizer que trata-se de ensinar as crianças a terem calma: algo que, tradicionalmente, não é abordado no ambiente escolar.

Em um programa semelhante, também dentro de um projeto de inteligência emocional, o mindfulness passou a ser oferecido no Colégio Mary Ward, de São Paulo (SP), no início de 2017. A prática é voltada aos alunos do período integral.

Alexandra Grassini, professora responsável pelas crianças do período e criadora do projeto, conta que conduz tanto sessões de mindfulness mais longas – se estendendo até 40 minutos – quanto mais curtas, de 3 minutos. “Antes de ir à biblioteca, por exemplo, às vezes o grupo está muito agitado. Então, convido os alunos a fazer o mindfulness por alguns minutos, para acalmar”, diz.

Já nos exercícios mais longos, as crianças são levadas a uma sala ou mesmo ao pátio, sentam em círculo e são convidadas a prestar atenção no movimento da respiração e nos sons do ambiente. Depois, elas compartilham quais ruídos conseguiram captar: alguém balançando um molho de chaves no corredor, os barulhos das conversas nas outras salas de aula, e assim por diante.

Aos poucos, as crianças tomam mais consciência das próprias emoções e desenvolvem a concentração. Os resultados, porém, não são imediatos: é preciso ter paciência e respeitar o tempo dos alunos, que podem levar algum tempo para se adaptar. “Algumas crianças ficam mais agitadas na atividade e está tudo certo. O objetivo não é que elas fiquem totalmente quietinhas, tem criança que se movimenta. Mas a gente vai acolhendo esses movimentos. Aos poucos, a prática vai se tornando hábito, e fica mais fácil”, explica Alexandra.

Cultura de paz

Outro aspecto que a meditação – tanto o mindfulness quanto outras técnicas – pode ajudar a desenvolver é a difusão de uma cultura de paz, já que a prática está relacionada à calma e ao aprendizado de como lidar com as emoções. A cultura de paz faz parte, inclusive, dos tema incentivados pela Unesco.

Na Escola Estadual Joaquim Luiz de Brito, de São Paulo (SP), o professor de filosofia Fábio Lima criou, no ano passado, o projeto ‘Brito na Cultura da Paz’. Nele, conduziu sessões de meditação para todos os alunos da escola. “Deixamos os pensamentos passarem, focando na respiração até eles se acalmarem. Podemos mesclar com algumas mentalizações ou visualizações. Isso por, no mínimo, cinco minutos”, explica.

O professor diz ter o cuidado de tornar a meditação laica e universal. Assim, os alunos podem focar a concentração até mesmo na visualização de uma paisagem. “O importante é manter o foco. Sem enfatizar a questão da crença.”

Lima também desenvolve o projeto ‘Brito Sem Homofobia’, oferecido aos alunos do período integral. Em encontros que ocorrem uma vez por semana no contraturno das aulas, os alunos participam de sessões de meditação com convidados de fora, aprendendo diferentes técnicas, além de discutirem sobre questões como orientação sexual e homofobia.

Na escola de educação infantil Arte de Ser, também de São Paulo (SP), a cultura da paz faz parte da própria filosofia da instituição. E a meditação ocupa papel de destaque entre as práticas que permitem que essa filosofia se concretize, sendo realizada uma vez por dia.

De acordo com Maeve Vida, coordenadora pedagógica da escola, um dos resultados da meditação é a redução de problemas como a agressividade e a indisciplina. Além disso, a prática acaba por refletir também no desempenho acadêmico. “A meditação desenvolve a concentração. E, para qualquer atividade cognitiva, a concentração é importante”, afirma.

Cuidados

Apesar de as práticas meditativas apresentarem benefícios, é consenso que alguns cuidados devem ser tomados por escolas que decidirem implementá-las. No caso da rede pública, a laicização das práticas utilizadas se faz fundamental.

Além disso, tanto o mindfulness quanto outras técnicas meditativas não devem ser encaradas como a solução dos problemas da escola, mas sim como ferramentas auxiliares. “Vejo o mindfulness como peça de um quebra-cabeça dentro da complexidade da escola, e que contribui, de forma efetiva, no desenvolvimento emocional das crianças”, avalia Alexandra Grassini, professora do Colégio Mary Ward.

Mindfulness em animação:
https://youtu.be/PZ11v2qQMtc

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