Jovens propõem soluções à violência através da educomunicação

Julho 20, 2019
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Julho 20, 2019 Core

Nas páginas do Facebook, Twitter, YouTube e Instagram da Escola Estadual Baltazar de Oliveira Garcia, a mensagem que ecoa é a mesma: Ouça Minha Voz! O recado é dado por um grupo de jovens de 16 a 18 anos. No bairro Protásio Alves, na periferia de Porto Alegre (RS), a produção de mídia foi a ferramenta usada por alunos para quebrar o paradigma de que só os adultos falam, questionam e participam das decisões. Com quase 1900 alunos, a Escola Estadual Baltazar de Oliveira Garcia funciona em três turnos.

Com a proposta de trazer a voz do jovem para o centro do debate, o grupo produz fanzines, cartazes, vídeos e textos que denunciam os diferentes tipos de violência presentes no seu dia a dia. Da insegurança provocada pela falta de iluminação no entorno da escola à discriminação e o preconceito vivido por eles, os conteúdos trazem sempre a perspectiva e a linguagem da juventude. “São temas que vemos todos os dias no cotidiano”, diz o estudante Felipe Demartini, 17.

As atividades de educomunicação tiveram início com a chegada de um programa da Flacso Brasil (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais) que, em parceria com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), tem o objetivo de diagnosticar e desenvolver um planejamento participativo de prevenção à violência nas escolas. “Os jovens são pouco escutados nas escolas, mas juntos eles também podem fazer as suas próprias reivindicações”, defende Miriam Abramovay, coordenadora da área de Juventude e Políticas Públicas da Flacso.

A partir dessa escuta, com a devolução de resultados para as escolas e para as secretarias de educação, começou a ser traçado um plano de ação conjunto para refletir sobre diferentes formas de violência e estratégias para minimizar o seu impacto no cotidiano. “Todo o programa está baseado na tentativa de melhorar o clima escolar. O que o jovem pode fazer para mudar a sua escola?”, explica Adriana Schneider, assessora pedagógica do ensino médio na Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul.

Em um período marcado pela onda de violência nas escolas brasileiras e também no auge do debate nacional sobre a reforma do ensino médio, ela conta que o programa surgiu como uma oportunidade de contar com a participação dos estudantes para superar esses desafios. “Toda vez que você ouve e envolve o jovem, de alguma forma ele se sente incluído e responsável pelo trabalho.”

Para contar com o envolvimento efetivo dos alunos no enfrentamento da violência, as escolas participantes do programa tiveram que formar grupos focais compostos por educadores e estudantes. Na Baltazar de Oliveira Garcia, três professores foram selecionados para essa função. “Eles tiveram que eleger uma turma para começar o projeto e fizeram uma preparação com esse grupo de alunos, trabalhando protagonismo juvenil e seguindo um roteiro para cada etapa”, conta a diretora Doris Monteiro Grendene, que foi responsável pela indicação dos docentes.

O trabalho começou pequeno, com um grupo de 17 alunos do segundo ano, que foi preparado para debater o tema, conduzir pesquisas sobre o clima escolar com os colegas e produzir conteúdos para diferentes mídias. “No início, surgiram muitas dúvidas sobre como seria organizar essas ações. Os professores e os alunos foram devagar até se apropriarem da proposta. Depois eles começaram a crescer juntos e perceberam que as coisas estavam ganhando corpo”, lembra a diretora.

O professor de filosofia e sociologia Carlos Eduardo Dias Magalhães conta que recebeu o projeto com desconfiança, em um momento em que até o salário dos professores do Estado estava em atraso. “Nós pensávamos: será que estão colocando mais trabalho para os professores?”, recorda. No entanto, ele diz que a pertinência do tema e a possibilidade de aplicação prática na sua disciplina fz com que topasse encarar o desafio.

Alunos viram pesquisadores

Como uma das primeiras ações conduzidas pelo grupo, os alunos fizeram uma pesquisa com os colegas de todas as turmas do ensino médio para identificar a percepção deles sobre a violência no bairro, seus reflexos na escola e o que poderia ser feito solucionar esse problema. “Antes de fazer o trabalho de pesquisa, tivemos que transformar esses alunos do segundo ano do ensino médio em pesquisadores. Sabemos que eles devem ser protagonistas, mas também precisam de orientação sobre como fazer e o que pesquisar.”

A preparação aconteceu por meio de aulas, debates e até simulações de entrevistas. Com o roteiro pronto, os alunos passaram de sala em sala para ouvir os colegas. “Foi uma coisa nova para a escola. Teve gente que não calava a boca, mas algumas turmas pareciam mais comprometidas com a pesquisa”, avalia Gabriel Ramiro, 16, em tom bem humorado.

A partir das entrevistas, os jovens identificaram que a falta de segurança no entorno da escola, a ausência de alguns professores e a inexistência de um grêmio escolar para garantir a representatividade dos alunos eram os problemas que mais incomodavam os colegas. “Muitas vezes eles vinham para escola e apenas sentavam para ser ouvintes, mas aqui eles tiveram a oportunidade de falar”, ressalta a professora de matemática Daiane Campos.

Depois de levantar as prioridades, foi a hora de elaborar um plano de ação. De forma participativa e com o suporte da educomunicação, os alunos engajados no projeto apresentaram algumas possíveis estratégias para resolver os problemas apontados. “As ideias foram todas dos alunos. Eles são protagonistas em tudo o que fazem. Nós apenas orientamos e tentamos fazer o máximo para que eles consigam se organizar”, garante a professora de biologia Sandra Augustin.

Para que os alunos conseguissem dar conta de desenvolver ações em prol de melhorias na escola e no entorno, cada demanda ganhou um responsável. “Todas as ações foram divididas entre alunos responsáveis, mas sempre com o auxílio de um professor mediador”, diz Sandra.

A partir daí, o grupo partiu para mudanças concretas. Como resposta ao sentimento de insegurança dos colegas com o entorno da escola, os jovens coletaram assinaturas para reivindicar melhorias na iluminação do ponto de ônibus. “Quando fizemos o abaixo assinado, conversamos bastante com os responsáveis. Até eles nos incentivaram e falaram ‘que bom que vocês estão preocupados com o entorno da escola’. Tivemos total apoio dos pais, mas também teve muita gente desinteressada”, conta a estudante Tamires Santos da Costa, 18.

Outro abaixo assinado foi elaborado para cobrar uma solução para a falta de professores. Em relação às questões de relacionamento com os educadores que já estavam dentro da sala de aula, eles decidiram apontar o descontentamento nas reuniões do conselho de classe. “A gente está tão acostumado com algumas coisas que pensa que não pode fazer nada para mudar”, diz a estudante Laís Adriano dos Santos, 16, ao mencionar que ela e os colegas perceberam que era possível intervir na realidade da escola e entorno.

As oficinas de educomunicação e a possibilidade concreta de produzir conteúdos também contribuíram para mudar a visão dos jovens sobre o seu papel como agentes de mudança. “Os alunos levaram o projeto muito a sério porque era focado no cotidiano deles. Trabalhamos muitas metodologias diferentes, do teatro até a produção de fanzines. Essa multiplicidade fez com que eles fossem se envolvendo”, aponta o monitor de educomunicação Rui Antônio de Souza.

Como forma de combater a apatia dos alunos, que muitas vezes se sentem impossibilitados de trabalhar em prol de mudanças na sua escola e comunidade, ele diz que é preciso aprofundar o debate para que os jovens tenham referências para construírem suas próprias opiniões e questionarem argumentos sobre diferente temas. Como exemplo, ele cita a discussão sobre encarceramento da juventude.

Na avaliação da diretora, Doris Monteiro Grendene, o envolvimento dos jovens no programa de combate à violência já começou a mudar o clima da escola. “No início, tínhamos muitas brigas aqui. Agora elas são eventuais. Eles começam a se sentir responsáveis pelo todo e passam respeitar as regras de convivência”, observa. Ela ainda garante que, apesar da participação exigir mais da trabalho da gestão, os resultados valem o esforço. “A mudança acontece quando eles se apropriam dos seus direitos e deveres. Eles sabem que podem exigir algumas coisas, mas também devem ajudar a conduzir essas ações.”

Para atender as prioridades levantadas pelos alunos, ainda falta encontrar uma estratégia para resolver o problema da ausência de um grêmio escolar. Depois de pesquisar o que era preciso para a sua fundação, o professor de filosofia e sociologia Carlos Eduardo Dias Magalhães diz que talvez eles encontrem um outro caminho. “Percebemos que os jovens querem ser ouvidos, mas não estão interessados em burocracia. Eles querem uma maneira mais ágil de participar”, conclui.

 

Fonte: Porvir

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