BLAM: UM TEXTO SOBRE A LUTA E PELO DIREITO À EDUCAÇÃO INCLUSIVA

Maio 3, 2019
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Maio 3, 2019 Core

BLAM: UM TEXTO SOBRE A LUTA E PELO DIREITO À EDUCAÇÃO INCLUSIVA

 

Blam! Fez a primeira porta.

Fechou-se bem atrás dela. Ainda pôde sentir o vento que veio forte, como um tapa. Mas a novidade era tanta, que apenas consentiu:

 

“Talvez eles tenham razão…”

 

Blam! Fez a segunda porta.

 

E essa soou mais dura, mais cruel, mais doída; como um pardal que quebra o bico no vidro. Ainda assim, ela admitiu:

 

“Talvez seja melhor assim…”.

 

Blam! Cerrou-se a terceira porta.

 

E essa soou esquisita, oca; como o homem que escolhe o vidro do carro para morrer. Ainda assim ela aceitou:

 

“Assim deve ser o destino…”.

 

Blam! Blam! Blam! Urlaram as outras portas – rápidas e incompreensíveis. Ainda assim ela pensou:

 

“ Quem sabe da próxima vez…”

 

Assim foi a vida dela – ou antes – a dele. E ah, que doce foi o seu infortúnio; o de estar sempre com ela; e só com ela… Se à primeira porta ela tivesse se indignado, à segunda tivesse se revoltado e assim,sucessiva e corajosamente, tivesse esbravejado, chorado, gritado… Mas não: blam! blam! blam! Sempre blam!

 

Seguiriam assim por muito tempo, até encontrarem a próxima porta. Diante dela sentiam uma esperança pouca – daquelas de quem passa o chapéu na missa de domingo. E ela não se fechou. Não fez blam! Atrás deles, toda esquisita, permaneceu aberta; escancaradamente aberta.

 

Entraram. Ficaram. Pediram. Aceitaram. Mentiram para si próprios, deixaram-se enganar, como de costume. Afinal, a porta se abriu e não fechou atrás deles. Hora do menino baixar a cabeça, se encurvar, olhar rasteiro, deixar as vontades e os pensamentos calados dentro da boca acostumada a não dizer. Aceitar por uma vez e mais outra e mais outra, a mão enluvada, que pressionara os lábios por uma vida, secando a saliva e a palavra. Hora da mãe fazer o papel de pedinte, a mão estendida, as unhas comidas, o coração cortando…

 

Que me joguem as pedras! Não importa! A porta não se fechou! E assim ela gritou:

 

“Vamos, menino, entre! Antes que mudem de ideia!”.

 

E o menino entrou, embora nem mais fosse, de verdade, um menino. Por lá ficou, fingindo por um bom tempo ser alguém que não era. Anos até. Até que um dia, desavisado, ainda do lado de dentro, sentiu a porta mover-se. Uma brisa fresca empurrava a porta, para lá e para cá.

 

Olhou para trás e não havia ninguém. Por um segundo pareceu ter visto a mão de quem lhe fechara a primeira porta. Imaginou-a prensada pelo vento… No segundo seguinte pensou ter visto o vidro, o carro, o homem, o bico… A mão enluvada. Incompreensíveis e rápidos.

 

Foi quando tomou coragem, levantou os ombros e os olhos, olhou para fora e, esgueirando-se entre o batente e a maçaneta… Não teve dúvida: escapuliu.

 

Não tardou e ela surgiu. Camiseta lilás, sapatos sem salto,  cabelos fininhos no vento. Sorriram. Riram até.

 

Então ele lhe disse:

 

“Até que enfim!”.

 

Não tardou,  a última porta se fechou atrás deles:

 

Blam!

 

Helenice Schiavon- Professora, graduada em letras e em pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional,  Gêneros textuais, Literatura brasileira e africana. Promove vivências em Design Thinking e Empreendedorismo para educadoras. Fomenta as narrativas como parte da formação do sujeito. É Reinventora CORE.

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