Por que a escola tornou-se alvo do massacre?

Março 17, 2019
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Março 17, 2019 Core

Horas depois do massacre, a unidade de ensino começava a se tornar o epicentro das homenagens que moradores e visitantes prestam silenciosamente aos mortos da chacina.

 

Nesses 32 anos de experiência, de tudo o que presenciei na rede pública estadual de educação de São Paulo, o massacre ocorrido na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, me abalou profundamente.

Dois ex-alunos entraram na escola atirando e mataram cinco alunos, a Coordenadora e uma funcionária e deixaram outros tantos feridos e se mataram. Neste momento, a sociedade chocada e abalada tenta entender qual o motivo desse massacre, levantando hipóteses, acompanhando a mídia, trocando ideias entre familiares, amigos e colegas de trabalho. Na Educação, professores, alunos, equipe gestora, além das equipes técnicas da Secretaria da Educação do Estado e do próprio Governador do Estado, acolhem as famílias dos alunos, estabelecem parcerias com Universidades para, juntos, atuarem  auxiliando a comunidade a superar o trauma vivido.

Entre outros especialistas, Dr. Guido Palomba, psiquiatra criminal, analisa o massacre, afirmando que os assassinos têm ligação com a instituição que atacaram e que, pelas características dos jovens e pela forma com que o crime foi praticado,  eram doentes mentais.  

Analisando o local onde ocorreu o massacre, segundo os especialistas, a escola foi o local conhecido pelo aluno, fez parte de sua vida, da sua memória. Lá também foi o local em que ele pode ter tido problemas no relacionamento interpessoal com colegas, funcionários e até professores. Os assassinos escolheram a escola, mas poderiam ter escolhido outro local para praticar os crimes, como por exemplo uma empresa.

Culpabilizar a escola por esse massacre neste momento, pressupõe desconhecimento e análise rasa da situação, uma vez que, vários especialistas apontam que atiradores que também atacam lugares públicos apresentam os mesmos diagnósticos psiquiátricos, além de que, situações multifatoriais precisam se cruzar para que eles cometam o massacre.

E a Escola, como fica? O que pensa? Como deve agir?

Analisando apontamentos de especialistas nesses últimos dias, além da reflexão dos 32 anos de experiência na rede estadual de São Paulo, levam-me a questionar algumas situações que a escola pública deve observar sem que estas se apresentem como uma receita de bolo e não considerem referências ao massacre propriamente dito.  Afinal, cada escola é uma escola e até cada classe de alunos e cada aluno são únicos, carregados de crenças, superstições, vivências culturais pessoais e até a presença familiar, ou não (problemas sociais familiares) e problemas socioeconômicos. 

A Escola deve atuar no sentido de observar os sinais de alerta no relacionamento de alunos com alunos, alunos com professor, professor com alunos, alunos com funcionários e fazer a devida intervenção, preocupando-se em não deixar a situação se estender e se agravar. O professor deve interromper a aula e conversar sobre o ocorrido.

Quando um aluno não se relaciona bem com o outro ou sofre bullying  e o professor continua dando aula e não atua no sentido de resolver tais conflitos, o aluno agredido apresenta sentimentos ruins (podem ir se acumulando) que podem se transformar em atos de violência.

Atuar, sistematicamente, no desenvolvimento de projetos e ações, objetivando a Cultura de Paz, fazendo esses parte do projeto Político Pedagógico da unidade escolar, que deve ser revisto, constantemente, afinal, a sociedade contemporânea exige.

Reforçar a atuação na mediação de conflitos, não só por parte do Professor Mediador de Conflitos, figura presente nas escolas estaduais e que contribuem sobremaneira para as atividades diárias e  conflitos nas escolas, como por toda a equipe, merendeiras, funcionários, comunidades, equipe gestora, professores. Todos devem ser mediadores e devem ser preparados para isso!

O ambiente escolar deve ser um lugar seguro em sua infraestrutura. Não pode ser um local aberto, sem identificação de quem chega ao local, no entanto, vale apontar que os assassinos eram ex-alunos.

A Escola deve ser um local prazeroso, agradável, em ambiente de vivências de Cultura de Paz, de mediação de conflitos, de respeito ao próximo em suas diversidades. Aulas diversificadas, utilizando metodologias Ativas, por exemplo, contribuem sobremaneira para a aprendizagem significativa e consequentemente a atenção nas aulas e apreensão das habilidades pelos alunos, em uma sociedade midiatizada. Nesse sentido, concordo com Moran (2012, pg. apres. X)) quando diz que, 

É preciso reinventar a educação, analisar as contribuições, os riscos e as mudanças advindas da interação com a cultura digital, da integração das TDIC, dos recursos, das interfaces e das linguagens midiáticas à prática pedagógica, explorar o potencial de integração entre espaços profissionais, culturais e educativos para a criação de contextos autênticos de aprendizagem midiatizados pelas tecnologias. Para impulsionar o engajamento dos estudantes nos processos de ensino e aprendizagem é premente recontextualizar as metodologias de ensino diante das suas práticas sociais inerentes à cultura digital, ou seja, integrar as mídias e as TDIC no desenvolvimento e na recriação de metodologias ativas

A Gestão democrática na escola pública é questão primordial. É preciso uma cultura participativa e atitudes coletivas na resolução de problemas e participação ativa dos colegiados da escola (APM – Associação de pais e Mestres, Conselho de Escola e Grêmio Estudantil) nas várias dimensões da gestão como a de infraestrutura, pedagógica, financeira… 

Quando o Grêmio Estudantil da escola, por exemplo, participa ativamente na rotina da escola em suas várias dimensões da gestão, escutando a todos, desenvolvendo projetos juntamente com a equipe gestora e professores objetivando a Cultura de Paz, respeito as diversidades, atuando colaborativamente e voluntariamente na mediação de conflitos, propondo ações para o ensino de qualidade e no relacionamento interpessoal entre alunos e alunos com professores, contribui para um ambiente harmonioso, prazeroso, em que aprender, significa viver a educação integral, uma educação pautada na humanização e no respeito as diversidades, ou seja, a Cultura Organizacional da escola será agradável e acabará atraindo cada vez mais alunos, com frequência ativa e participação efetiva da comunidade, atuando coletivamente.

Exemplo disso é o que ocorre na Escola Estadual José Sanches Josende, em Mogi das Cruzes. O Grêmio Estudantil, comandado pelo seu Presidente Gustavo Costa, na época, que hoje já se formou e frequenta a graduação em Assistência Social na Faculdade e é Presidente da CORE Jovem, incomodou-se com as taxas de evasão e abandono dos alunos, elaborou um projeto, apoiado pela equipe gestora e colocou em prática para trazê-los de voltaàs aulas. Consistia em levantar os alunos faltosos e os que tinham abandonado a escola. Com todos os dados em mãos iam até a casa do aluno, conversavam longamente em muitos casos, com a família e o aluno, e o convenciam a retornar aos estudos. Essa ação não ficava só no retorno e sim no amparo pedagógico que os mesmos alunos tinham. Um Projeto de sucesso planejado, organizado e desenvolvido por alunos falando com alunos. 

Fato é, a escola tem que, sistematicamente,desenvolver ações que envolvam o coletivo, que se dediquem, dioturnamente, a trabalhar com a diversidade, a solidariedade, o respeito ao outro e disseminar a paz, afinal a função da escola é social.

Nenhum a menos é o termo mais adequado que penso para os dias atuais. Não devemos e não podemos deixar escapar nenhum aluno que se evade, que abandona a escola, que apresenta comportamento de transgressão, que fica no canto acuado (alguma razão tem com certeza), que pratica ou sofre bullying.

Como diz Daniel Goleman², em alguns estados americanos e outros países, Programas de “aprendizado social e emocional”, juntou-se à programas de educação de caráter, de prevenção à violência, agressão contra colegas e drogas e de disciplina escolar. O objetivo além de reduzir a incidência desses problemas, é melhorar o ambiente escolar e, em última instância, o desempenho acadêmico dos estudantes.

Vale a pena ressaltar que os caminhos a serem percorridos são ainda desafiantes. Vivenciamos, na sociedade brasileira, principalmente, o discurso de ódioaté por questões político partidárias, fazendo com que as famílias rompam relações. Na contramão disso, há escolas que desenvolvem a inteligência socioemocional, promovendo debate de ideias, construção de relações respeitando as diversidades, levando os alunos a pensar antes de reagir, a lidar com as emoções, com as frustações, ensinando a resiliência, objetivando proteger a emoção para prevenir transtornos psíquicos, formando alunos altruístas, solidários, tolerantes. É na escola que se iniciam as relações presentes na sociedade, no exercício da cidadania, crítica e transformadora.

Por fim, e a meu ver, as competências socioemocionais desempenham um papel importantíssimo na obtenção do sucesso escolar e na vida de nossas crianças e jovens. Vale a pena investir nelas!

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²GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente. 2ª edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, p.  11.

Rosania Morales Morroni – é graduada em Licenciatura Plena em Educação Física pela Universidade de Mogi das Cruzes (1991) e Complementação Pedagógica pela Universidade Camilo Castelo Branco (1995) além de ser Mestra em Educação, Administração e Comunicação pela Universidade São Marcos (2006). Ministrou aulas no Projeto Pedagogia Cidadã, pela Universidade Estadual Paulista, no curso de Pedagogia na Universidade Guarulhos e Faculdade São Sebastião. Foi Dirigente de Ensino na Diretoria de Ensino – Região Itaquaquecetuba e Mogi das Cruzes

 

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