Janeiro 15, 2019 Core


Alguma força maior me trouxe a este lugar, uma razão intuitiva, só humana mesmo. Tem sido assim, muitas  vezes. Talvez seja por isto que, no meu ralo currículo de professora se desenhe uma certa incoerência. Os cursos que faço vão de literatura africana às narrativas de vida, de empreendedorismo feminino à escrita de séries e novelas (que jamais consegui escrever), de questões de currículo aos transtornos de aprendizagem. Também compõem o acervo, inovação e mudança, poesia, lugares de fala e de escuta… E agora este, sobre ética.

Essa incoerência nos interesses revela um pouco sobre mim, mas têm uma justificativa: o tempo. Acho-o sempre pouco e agora, então, que estou ficando “jovem há mais tempo”, parece que ele está encurtando impiedosamente. Mas a verdade é que sempre tive pressa; mesmo quando era mais jovem. Mas não aquela pressa afobada, de resultado. É uma pressa contemplativa, necessária… E creio que talvez não me entendam.

Eis-me aqui, então, neste lugar; impulsionada por esta minha particular forma de incoerência. A porta do auditório ainda está fechada e, no alto, na parede de cima, está o nome que batiza o espaço: Lina Bo Bardi. Visitei uma vez a casa dela, no Morumbi. Estranho seu nome estar sobre a pesada porta de ferro, cerrando o auditório… Imaginei-a por um instante de vidro…

Não tarda e a porta se abre para um grande auditório que surge pomposo, ele todo em cadeiras vermelhas. Meia dúzia de mulheres ocupa o espaço, uma em cada canto do ambiente. “Espaço não falta para debater ética”, penso. Ao fundo, uma imagem se projeta à frente, vinda de um Power Point: é Kronos. Pouco tempo depois ele surge, o professor. A primeira fala dele é irônica e aprimora a voz do meu pensamento: “meia dúzia de pessoas querendo falar sobre ética; todas elas mulheres”.

Rápidas são as suas palavras. Tão velozes que minhas anotações ficam ininteligíveis: ouvi falar de Platão. Sócrates, Montaigne, Spinosa e de algoritmos. Naquele momento, seguindo o seu pensamento, tudo fazia sentido, mas sofreria, calada, com a iminente certeza de que não há somente um tipo de palavra. Sabia que, tão logo saíssemdo auditório, as palavras do professor iriam me assombrar – alheias, bandidas e fantasmas. Num esforço, tentaria segurar outras tantas meia palavras pelas vestes, mas estas também sairiam ilesas e inteiras para meu desespero. A esse ponto, tão difícil era admitir minha fragilidade diante das palavras! Confesso, àquele ponto, que não saberia dizer o que se daria com aquelas outras cinco mulheres presentes na sala; mas, para mim, as palavras vinhamvelozes e estavam longe de ser inteiras… E não há conhecimento  que resista se não passar pela palavra inteira. Pobre de mim… Mesmo assim, anotava-as, na esperança de ruminá-las algum dia; em especial as daquele autor que, em seu tratado, ensina a nomear os afetos.

Mas nem tudo foi tão difícil. Algumas coisas fizeram muito sentido, e de pronto. Como a afirmação vinda categórica do professor: “a primeira coisa que pensamos sobre algo sempre está errada!”. Platão surgiu para justificar: “a verdade é uma única coisa, logo, há muito mais chance de se pensar numa mentira…”. E foi assim que, completamente dominada, vi surgir diante de mim Kaos, Gaia, Urano, Eros, Kronos – aquele cuja imagem estampava-se na parede do auditório – Afrodite, Reia, Zeus, Atena, Hermes, Poseidon, Ades, Prometeu, Epimeteu… 

“A origem do conceito de ética está na mitologia”, arrematou o professor, e isto sim, depois de ouvir as histórias de tantos deuses fazia algum sentido para mim.  

Mas eis que a voz do maestro começa a colocar outras grandes questões, sem permitir que eu e as outras mulheres retomássemos o fôlego: iniciou a falar sobre os pilares da existência humana – tema da noite. Primeiro, afirmou que nosso tempo é limitado e que somos seres temporais. Segundo, que só transformamos o mundo e a nós mesmos porque morremos, ou seja, não somos eternos. Terceiro, que, por não termos recursos naturais para viver, nossa vida não está pronta. Concluiu dizendo que somos todos seres finitos e, por consequência, devemos criar e fazer escolhas. Eis porque a ética é tão exclusivamente humana e necessária; um caminho para quem deseja alcançar a felicidade.

E foi com estas palavras brutais e inteiras que a aula terminou, tão inesperada quanto começou. A imagem de Kronos permanecia lá, asombrosa, projetada na ampla parede do auditório – único slide da noite, de onde reforçava, impiedosa, as prováveis lições que as outras cinco mulheres haveriam de levar daquela noite; lições da nossa pequeneza, ignorância e impotência. Mas não só. A aula de ética terminava da mesma forma que a mãe tira da tomada do videogame, como aquele professor que recolhe a prova do aluno no último segundo, como se é surpreendido numa emboscada. Terminava como o arrependimento que surge, inevitável, após a ação não tomada, como o choro escondido de Pilatos, como o medo do amante e como a respiração do ladrão; como a aia que barganha a morte do filho da Sinhá pela de seu próprio filho… Como Einstein e a bomba atômica e Galileu e o sol.

Em última instância, a derradeira fala do professor revela minha inabilidade com a força das palavras – demasiado  inteiras para compreendê-las: “somos todos seres éticos, posto que necessitamos da ética para viver. O que está em xeque não é a ética, mas o tipo de arrependimento que escolhemos ter na vida: o possível, o impossível ou o canalha.

Saí de lá calada. O relógio dava vinte e duas e dezessete. Só conseguia pensar que, no dia seguinte, minha primeira aula haveria de ser no nono ou no sexto ano… Tinha que falar de arrependimentos, de toda e qualquer forma que pudesse: com palavras alheias, inteiras ou meia palavras; ora se tinha!

Alguma força maior me levava de volta à casa, uma razão intuitiva, só humana mesmo.

Helenice Schiavon – Professora, graduada em letras e em pedagogia, especialista em Psicopedagogia Institucional,  Gêneros textuais, Literatura brasileira e africana. Promove vivências em Design Thinking e Empreendedorismo para educadoras. Fomenta as narrativas como parte da formação do sujeito. É Reinventora CORE. 


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