Do lixo ao luxo da sustentabilidade

Dezembro 13, 2018
Dezembro 13, 2018 Marcia Ameriot

Débora Garofalo superou uma infância desafiadora de pobreza e preconceito para formar-se professora. Mesmo que, desde criança a paixão por ensinar fosse forte, teve que deixar a sala de aula ao ingressar na faculdade de Letras.  “Queria conhecer outras coisas e o salário [em escola] não dava para pagar a faculdade e fui para banco, trabalhar em indústria, mas queria ficar em escola pública, porque é onde eu achava que podia transformar. Então fiz concurso e ingressei no Estado. Por muitos anos trabalhava na indústria durante o dia e dava aula no EJA (Educação de Jovens e Adultos) à noite.” Mas, em 2008, decidiu que queria se dedicar somente a educação e foi o que fez.

Quando chegou à sua escola, a EMEF Almirante Ary Parreiras, na Cidade Leonor, periferia de São Paulo, Débora percebeu que os estudantes não estavam recebendo uma educação em tecnologia que os capacitasse a prosperar no mundo do trabalho. No entanto, a escola não tinha recursos suficientes, e as crianças estavam sofrendo com o impacto do ambiente local, que foi afetado pela violência, pelas condições insalubres e pela pobreza.

Ela decidiu se inspirar no que viu ao seu redor e trabalhou com os alunos para mapear os problemas da área local através da fotografia. Ela usou essa informação para desenvolver o projeto “Robótica com Sucata Livre, promovendo a Sustentabilidade”. Para lançá-lo, ela primeiro precisava construir a confiança de seus colegas sobre o trabalho com tecnologia.

Débora também realizou aulas abertas sobre gestão de resíduos para a comunidade local e incentivou as pessoas a trazerem itens que, de outra forma, seriam jogados fora.  A professora ensina a criatividade da cultura “criadora” para encorajar os alunos a transformar esse desperdício em protótipos de coisas que imaginaram, projetaram e construíram.

Os alunos começaram com projetos simples, e ao longo do tempo, Débora introduziu os fundamentos da eletrônica e, em seguida, passou para a robótica mais complexa, por exemplo, usando chips controláveis. Mais de 2000 alunos participaram do programa e criaram protótipos de tudo, desde robôs e carrinhos até barcos e aviões. Mais de 700 kg de lixo foram transformados em algo novo.

O impacto nos estudantes foi impressionante. Eles desenvolveram suas habilidades de trabalho colaborativo e interdisciplinar e aprofundaram sua compreensão de eletrônica e física. Eles estão aprendendo sobre ser cidadãos globais e impactando sua comunidade local removendo o lixo e reciclando-o. Os resultados da avaliação entre os alunos participantes aumentaram de 4,2 para 5,2, enquanto pelo menos 28 alunos permaneceram na escola quando estavam em risco de abandono.

Talvez uma das maiores conquistas do projeto seja ter mudado a  EMEF Almirante Ary Parreiras. Agora a violência é apenas um elemento, não o que a caracteriza. A escola também tem uma reputação de excelência em programação e robótica e por contribuir para a melhoria do ambiente local e questões globais como a sustentabilidade.

O programa não foi expandido apenas dentro da escola. As escolas municipais de São Paulo usaram-no como base para implementar um novo currículo de tecnologia, incluindo o ensino de programação e robótica.

Débora é generosa com seu aprendizado. Ela é curadora da São Paulo Tech, onde treina outras professoras em robótica com sucata. Escreve colunas regulares em três publicações nacionais de educação para compartilhar idéias e técnicas práticas e,além disso, seu trabalho tem sido influente no desenvolvimento de diretrizes para o ensino de tecnologia em todo o país.

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Marcia Ameriot

Bacharel em Comunicação pela PUC - SP e jornalista.Há mais de 30 anos atua no Terceiro Setor, tendo dirigido grandes fundaçōes. Desenvolveu sua carreira em Comunicação em veículos de comunicação como Folha da Tarde, Revista Pequenas Empresas Grandes Negócios. Especialista em Gestão de Organizações do Terceiro Setor pela FGV - SP, é Reinventora CORE e Diretora de Comunicação da Associação.

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